O Galo da capoeira

Ficaram para trás os tempos em que as mães-galinhas eram a praga deste mundo. Foi toda uma temporada repleta de apertares de bochechas incomodativos e buzinadelas em frente à escola que constituíam o pavor de qualquer criança a partir dos 10 anos (já estou a ser simpática na idade tardia). A verdadeira bactéria, daquelas que custam a passar e que eu, infelizmente, desconfio ser crónica são os pais, galos por excelência. Podem ter estado adormecidos e/ou ocupados na recolha da maior quantidade de milho possível ou em lutas que acham "de macho" (mas que na realidade são verdadeiros espectáculos de comédia) durante uns tempos; porém, mais tarde ou mais cedo, acabam por se revelar. Basta deixarmos de brincar com bonecas e passarmos a achar piada aos bonecos para quase os ouvirmos rosnar (sim, eu sei que quem rosna são os cães, mas os pais são um bicho esquisito).
Sei de um, longe de mim dizer nomes, que é perito em dar com as filhas em doidas. Tenho cá para mim que o seu passatempo de eleição é afugentar-lhes os namorados. Depois há todas aquelas tretas que não é difícil conhecer os pais das meninas. Não que não é! Ainda bem que não nasci com uma pilinha, eu cá, que fujo das sogrinhas como o diabo da cruz, é que não queria ter que passar por isso.

E continuando nesta pseudo análise masculina, que não é de todo exagerada, não poderia deixar de realçar a última do chefão. Reforço que a minha intenção não é comprometer a privacidade de ninguém, pelo que será absolutamente impensável, se não impossível, que vocês, queridos leitores, adivinhem de quem poderei estar a falar. Não há muito tempo, há coisa de uma semana para ser exacta, o galo-mor saiu-se com uma destas:

Galo-mor: Oh A., podes chegar aqui? Chamas-te A. não é? É que eu costumo chamar-te Ambrósio, por isso nunca sei.

(Explosão de riso feminina vinda da cozinha. Entenda-se que a gargalhada veio aliada a mentes escandalizadas com a enorme lata do galo).

A (o namorado da filha): Sim, chamo-me A.

Horas mais tarde.

A.: Olha lá, o teu pai chama-me Ambrósio?? (O coitado, traumatizado, ficou a pensar nisso).

Namorada: Pois, sabes, ele tem dessas coisas. (O que é que se há-de dizer numa situação destas?). Mas não ligues, é na brincadeira.

A.: Oh, é normal que ele não saiba o meu nome, quase nunca me vê.

Namorada: Super normal, afinal tu só frequentas a minha casa há seis meses. Como é que ele se podería lembrar??

No dia seguinte.

Galinha: Então tu vais chamar Ambrósio ao rapaz? Oh galo, francamente!

Galo (num tom ingénuo que não engana ninguém): E qual é o problema? Não é pejorativo.

Portanto, de hoje em diante vou arranjar um nome igualmente bonito para o Galo, um diferente do seu, claro; porque não sendo pejorativo posso chamar-lhe o que quiser. Não que eu o conheça, obviamente, estou só a supor coisas. A galinha dele (que também não faço ideia quem seja) costuma dizer que é igual ao Steve Martin, em "O Pai da Noiva". Eu cá não nego.

Morte às siglas e afins


Quem manda às grandes empresas terem nomes que baralham? Quem lhes disse que era boa ideia? É que entre NMN ou MNM uma pessoa fica confusa. E eu, distraída, distraída, sou perfeitamente capaz de enviar uma carta de apresentação, bonitinha que só visto, a acompanhar o CV catita, e depois errar o nome da própria empresa. E pronto, se uma coisa dessas hipoteticamente* acontecesse, o meu palpite seria, não sei bem porquê, o de uma não resposta. 

Vou mas é ali à farmácia comprar Cerebrum (é assim?) e já volto.


*Compreendam que de hipotético pouco ou nada há nesta situação.

Tenho um pássaro na mão, mas quero dois a voar...


Em primeiro lugar, tenho a dizer-vos que são todos bem melhores do que eu na árdua tarefa de cruzar os dedos e torcer por mim. Assim que assumi o cargo foi um piscar de olhos até assistir a um desmoronar lento e cruel de qualquer possibilidade que ambicionasse. Cheguei às meias-finais do processo de recrutamento de uma multinacional. Fiquei foi por aí.

Esta sexta-feira vai trazer cheiro de fim de estágio consigo e, independentemente de ser  ou não possível, tenho que decidir se o quero prolongar ou bater asas para outra freguesia. A verdade é que face a uma hipótese que me oferece alguma segurança financeira durante 12 meses ainda há dúvidas porque este, sem qualquer desprimor para a instituição, não é, nem nunca foi, o meu emprego de sonho. Há muita coisa em jogo, repleta de "ses" que trazem melhores oportunidades ou, por outra, de esperança em oportunidades que poderão não vir. E tudo acaba por se resumir ao mesmo: dinheiro ou paixão? Nenhuma e as duas, na minha opinião. Num mundo ideal, coexistem; e ainda sou daquelas pessoas que acredita profundamente que irá encontrar o seu espaço nesse mundo. Mas para já, ou depois? Ganhar agora e sonhar mais tarde, ganhar mais tarde e sonhar agora?

Sei que me irei a arrepender caso queira e caso não. Sei que me vai custar que daqui a um mês apareça algo melhor e eu esteja presa num estágio profissional que me obriga a um ano sem interrupções ou desistências, com a certeza de que caso aconteçam, lhe perca o direito. Sei que me vou recriminar se nada vier e eu muito tiver recusado. E com tudo isto, e tanta coisa que já sei, nada é sabido, nem sequer o que fazer...

Hoje apetece-me perguntar #2



Quantos blogs é que visitas regularmente sem nunca comentar?

O despertar do instinto primitivo


Anda uma pessoa, toda pimpona, a desfrutar realmente de uma série, para chegar ao último episódio da terceira temporada - três semanas depois de um devorar intenso de capítulos -  e descobrir que a quarta foi cancelada. É impossível exprimir o quão errado isto está. É que a história não acabou, não nada; ficou simplesmente a pairar, como se se tivessem esquecido de gravar o resto. E desengane-se quem acha que estamos perante uma narrativa aberta que dessas coisas que aprendemos em Língua Portuguesa nada há. Estava o enredo a meio, sem sequer um qualquer sinal que vislumbrasse o fim. É como arrancar toda uma metade de um livro, página por página. E torcia eu pelo Logan todo o santo dia. Se havia casal giro, giro, giro era ele com a Veronica. Eram o par nada perfeito, errado que só visto; mas com os melhores diálogos da série, sem lamechice gratuita. Foi vê-lo dizer que os achava épicos para depois cancelarem a série com cada um para seu lado. Nem é preciso dizer que hoje não é um bom dia para se meterem comigo. Era cá darem um pulinho os manda-chuva por trás de decisões destas para verem se eu não lhes dava uma valente marretada na cabeça.


Rotação da terra




Em período de mudanças há coisas que permanecem e sabe bem que assim seja. Há saudade que fica, que vem e que vai, e há saudade que se mata. Ela tem um brilho nos olhos diferente, daqueles que deixam escapar que é feliz. Falta tudo e nada mais faz falta, porque no inconstante cabe a certeza de que o mundo pára.

Hoje apetece-me perguntar #1



Com quantos bloggers* é que achas que já te cruzaste na rua?

*Dos blogs que lês

De pernas para o ar e com pés e cabeça


Filho - Oh mãe, porque é que os heterossexuais não podem casar no Santo Antonieto?
Mãe - Hum...arg...olha, porque não. O Santo Antonieto é para pessoas normais. Essas coisas de heterossexuais são de há muito tempo atrás! Vivemos num mundo evoluído e sem discriminação de género: é mulher com mulher, ou homem com homem. Acabaram-se cá aquelas misturas esquisitas!
Filho - Eram maus?
Mãe - Claro que não, que disparate!
Filho - Estão doentes?
Mãe - Bem...essa é mais difícil de responder, as orientações deles são estranhas sim...
Filho - E pega-se?
Mãe - Nunca se sabe filho, nunca se sabe. Por via das dúvidas mantém-te afastado. É por isso que separamos as coisas, há que manter a tradição!
Filho - Então mas não era a evolução? Olha lá, e um careca com uma cabeluda já podem casar? São misturas...

(...)

Filho - Olha, a mãe não me explicou nada.
Filha - Pois, nem a mim.
Filho - Eu vou é ser sexual. Não percebo nada do resto.
Filha - E há casamentos para sexuais?
Filho -  Deve haver, hoje há tudo. Se há pessoas com tempo para discutir quem casa e onde casa, também há-de existir quem invente as soluções.

Acreditas?


Faz porque te apetece. Sorri para a vida, só porque queres. Pode nem tudo correr como julgas, se assim fosse, nada de bom viria sem estares à espera. Deixa-te estar, deixa-te andar, mas não pares. Pensa como se tivesses, age como se pudesses, festeja quando consegues. Não deixes passar o momento. Não te deixes ficar para trás. Não uses a palavra não. Dorme depois das boas noites, e só aí. Fecha olhos sempre que saibas que os voltas a abrir. Fecha os olhos porque sabes que tens com que sonhar. Adormece sabendo que ainda queres, que ainda desejas. Sente. Abraça o frio. Beija o calor. Dá os bons dias a um novo amanhacer. Mentaliza-te que és tu. Tu és tu e mais ninguém, e só de ti depende quem és. Transforma-te. Mantém-te. Reinventa-te. Sê fiel. Faz com que aconteça. Faz porque te apetece.

Come a papa, bebé come a papa



Hoje vamos falar de sensibilidade. Tenho para mim que o espécime masculino, sem querer entrar em generalizações abusivas, não prima pela mesma. É quase como se tivessem nascido com uma aptidão brilhante para dizer as coisas mais erradas nos momentos que mais pedem coisas certas. Já excluindo todas as alturas em que uma mulher está particularmente susceptível a mudanças de humor bruscas (TPM), nas quais vos aconselho a adoptar uma atitude passiva (é para o vosso bem), há ocasiões em que é realmente necessário que pensem duas vezes antes de abrir a boca. O fim de uma relação é um bom exemplo e, lucky me, um sobre o qual posso falar. Sei de uma pérola mais ou menos assim:

Ele: E pronto. Não sei se já estavas à espera que esta conversa terminasse desta forma mas, para mim, não há outra solução possível.
Ela: Não sei se "estar à espera" é a expressão mais adequada. Sabia que algo se passava e achei melhor falarmos, ao contrário de ti que nunca disseste nada. Da maneira como as coisas estão é que não faz sentido continuarem. Por isso sim, acabou.

(Silêncio desconfortável)

Ela: Podes levar-me a casa agora? Não trouxe o carro e não me apetece continuar aqui.
Ele: Sim, claro, eu disse que te levava. Mas agora? Tenho fome. (O que é que ele quer dizer com agora??)


(Imaginem o W como um grande botão vermelho mental que apita quando algo está errado)

Ela (W,W,W): Sim,  (respira fundo e prossegue, com toda a calma) preferia que fosse agora.
Ele: Oh, mas é hora de almoço, tenho que comer qualquer coisa primeiro. Se quiseres também podes almoçar.

Ela (W,W,W): Não, obrigada.
Dúvida minha: porque é que um homem pergunta se temos a certeza de uma coisa para depois ignorar completamente a nossa resposta?
Ele (perdendo toda a noção da realidade que lhe restava): Bem, então se quiseres podes é cozinhar-me qualquer coisa, fazes tão bem isto e aquilo.

Escusado será dizer que a conversa morreu. Sei, de fonte segura, que o homem almoçou a ver desenhos animados, enquanto ela, no sofá, desejava ardentemente ter chamado um táxi.

O saldo dos saldos

Depois do Colombo, e do Loureshopping, e do Dolce Vita....


Botas que perfazem o simpático total de 25,00€.


Ponto para as malhas giras a 9,90€.


Acessórios que não passam os 3€.

Não adoram os saldos?

Por mais fantásticas e emocionantes que as minhas mais recentes compras possam ser, (estão a notar o orgulho nas aquisições?) é com sinceridade que vos informo que não era esta a surpresa reservada para o fim-de-semana. Shame on me que nunca mais ando com isto para a frente. Ouvi falar de leitores que estão a fazer figas, ininterruptamente, desde o meu pedido. Bem, tenho a dizer-vos que dediquei este domingo à consulta de diversos especialistas em advocacia, das mais enumeras séries norte-americanas de sucesso dos últimos tempos, e quero aqui deixar um aviso legal: Este blog não se responsabiliza por futuros danos e/ou lesões físicas e/ou psicológicas que o seu conteúdo possa causar. Em caso de dúvida por favor contactar Ally Mcbeal, Eli Stone ou outros do tipo. Posso adiantar-vos que vos reencaminharam para a Sic Mulher, em busca de Doctor Phill, no caso de haver necessidade de algum acompanhamento psicológico; ou para Fox Life/RTP onde vos será dada prioridade nas urgências de Anatomia de Grey.

Agora que estamos esclarecidos, voltemos aos pensamentos felizes. Novidades? Daquelas mesmo, mesmo boas? Lamento, mas a espera ainda não terminou. É só mais um bocadinho, prometo. Até lá, podem dar descanso aos dedos que eu assumo o comando e torço para que as vossas maravilhosas figas tenham surtido efeito.

Dirty Little Secrets




Estão a ver a vossa mão direita? Ora muito bem, preciso que identifiquem cada um dos dedos. Do grandão da esquerda até ao mais pequeno, fica a ajuda: polegar, indicador, médio, anelar e mindinho. Ou, se preferirem, ao contrário: mindinho, seu vizinho, pai de todos, fura bolos e mata piolhos*. O importante é que estejam bem cientes de qual é qual. Tudo certo até aqui? Então vamos lá continuar com as instruções, façam de conta que estam a ler um manual do Ikea.




1. Posicionar o dedo médio sobre o indicador.
2. Apertar com alguma força para que resulte nas chamadas figas. (Mas isso bem feito, hein?)
3. Fechar os olhos e repetir mentalmente: "Vai acontecer".
4. Continuar a ler este post.

Simples, não é? Quase como respirar. E é tudo o que vos peço. Porque se cumprirem a vossa parte prometo que no finzinho desta semana cá estarei com novidades daquelas mesmo, mesmo boas.

* O que eu acho piada à lengalenga!

Chama-me lá mal agradecida

Querido Pai Natal,

Eu bem sei que a carta está fora de tempo mas, se estas coisas continuam a acontecer, creio que não andaste a fazer bem o teu trabalho. Percebo os tempos de crise, sei que a tua disponibilidade financeira não é a mesma. Não adianta vires com conversas que isso não importa, só porque não compras nada feito e tudo mandas fazer. A fuga aos impostos é um ponto a teu favor sim, mas os duendes a contratar são cada vez menos, e com recibos verdes não andam propriamente satisfeitos. Pai Natal que é Pai Natal mantém os duendes felizes. Mas sem direito a férias, subsídios de alimentação e transporte, e com uma ameaça de despedimento que pode chegar a qualquer momento, não se fazem milagres. Tudo isto para que saibas que compreendo que a vida não está fácil, nem a minha, nem a tua.

Todavia, se bem te lembras, enviei um e-mail para a tua conta da Lapónia, lá para meados de Dezembro. Até anexei imagens de uns azevinhos bonitos, pensei que fosses gostar. Menina bem comportada que é menina bem comportada gosta de agradar ao Pai Natal. Expliquei-te que, embora muito quisesse o relógio, as botas, as calças, o kit de maquilhagem e todos os outros, compreendia que estás a viver do dinheiro da reforma, e que não há nova riqueza a ser criada no país. Congratulei-te por abençoares o casamento das fadas Ana-lúcia e Humberta. A propósito, já espreitei a nova galeria de fotos das moças no Facebook, e tenho-te a dizer que as libelinhas que adoptaram são as coisinhas mais fofas que já alguma vez vi. Nota-se que estão felizes, no seio de uma família que as ama com todas as forças.

Quase no finzinho, e agora é a parte que importa relembrares, pedi-te expressamente por CALORZINHO, SOL, ESTRADAS SECAS. Apelei à tua magia perdida, daquela que me trazia coisas dessas, sem prejudicar plantações ou a camada de ozono. Ora, qual não é o meu espanto quando a Mãe Natal me envia uma sms, ontem à noite, a avisar que tropeçaste no tapete da sala, enquanto punhas em prática o meu pedido. Como se não bastasse, ainda decidiste enganar-te nas palavras. Estás gagá é o que te digo. Deixa a mulher assumir o comando da situação, que ela já está toda modernizada e com wi-fi pela casa inteira. Porque se é para isto, se é para fecharem os acessos de Frielas, se é para haver tanto trânsito que durante uma hora não consegui pôr a segunda mudança, se é para chegar ao trabalho a tremer de frio, completamente encharcada, se é para isto, então não, obrigada!

E agora, com licença, que a Seaside está a fazer saldos de 60% e tem lá umas galochas giras.

É do alinhamento dos planetas?

2010 está estranho.


Eu tenho um inconsciente chamado Pires. É um tagarela, aproveita todas as ocasiões para meter conversa comigo. Na maior parte do tempo, estou demasiado cansada para lhe prestar atenção. Mas é astuto, o sacaninha. Ultimamente, voltou-lhe a mania de me acordar. É verdade, sim. Sempre que durmo, feliz da vida, aconchegada nos cobertores, numa paz de alma que só visto, lá vem ele com coisas.

"Olha que te esqueceste de ler o documento tal durante o dia".
"Acorda imediatamente para ires tomar o comprimido, vão passar 12 horas".
"Vê lá se puseste o passe dentro da carteira, acho que ficou pela sala".
"Se não conseguiste imprimir o regulamento, durante todo o fim-de-semana, porque o adobe está marado, tenta com o foxit"
"Levaste as leggins para a loja para experimentar com o vestido. O que não te lembras é que quando devolveste o vestido, à entrada dos provadores, devolveste também as leggins".

And so on.

É isto constantemente. E sou eu: "Oh Pires, deixa-me lá dormir". E é ele: "Eu não sou a senhora do metro, eu cá acordo-te quando quiser". E acorda. Sempre. Sejam duas, três, quatro, cinco, seis da manhã. Acorda-me. Levanto-me e faço o que falta, ou escrevo num post-it - estrategicamente guardado na gaveta da cómoda ao lado da cama-, para fazer no dia seguinte. Já não me espanta. O que me surpreende, desde o início de 2010, é o descontrolo total do Pires e a frequência com que passou a massacrar-me: praticamente todas as noites. Já lhe disse para ir pregar para outra freguesia, mas no fundo sei que preciso dele por perto. Desde que me lembro que almejo por alguém que o distraia, uma companheira, assim com algum humor e uma boa dose de paciência. Ora, qual não é o meu espanto, quando, num jantar em que se trocaram prendas de natal atrasadas, a S. me diz:

"Esta noite sonhei com o A. Vê lá isto! Não sei nada dele há tanto tempo. Nem me lembro quando pensei no homem pela última vez. Achei tão estranho que no dia seguinte fui ao hi5 dele ver se havia novidades. E não é que ele fazia anos! Mais ainda: lembra-te lá quando é que nos envolvemos. (...) Pois, exactamente, foi no dia de anos dele há uns anos atrás. Agora diz-me se isto não é estranho."

Não é preciso dizer que fiquei radiante. Deixei de ouvir o Pires no exacto momento em que a S. terminou de falar. Tenho cá para mim que ficou à conversa com o inconsciente dela, a Matilde, durante o máximo de tempo que pôde e depois, à noite e já em casa, dormimos que nem uma pedra; ele e eu. No dia seguinte, chego ao trabalho, radiante e com bom aspecto, e apercebo-me da existência de mais um. Conta-me a A. que ultimamente são só coincidências. "Eu penso e acontece; eu procuro e aparece, não sei o que se passa". "Somos duas", respondo em surdina, num tom que faz o Pires rir. É que sabem, eu não acredito em bruxas, mas que as há....

Os meus adoráveis ex

Sou amiga de todos os meus ex-namorados. Ok, se calhar amiga é uma palavra forte. Não temos uma relação diária, não falamos constantemente e não nos vemos sempre. Mas estou lá quando precisam, e sei que posso contar com eles também - ainda que de diferentes formas. Costumava perder muito tempo em discussões com uma amiga que não compreendia muito bem como era possível. "Os homens nunca são só amigos, muito menos aqueles com quem temos um passado" - argumentava ela.  E que me importa isso? - respondo, agora. Que me importa o que eles querem quando eu sei o que eu quero? Mais e melhor: quando eu sei o que eu não quero e quem eu não quero? Conheço palavras suficientes para lhes dar conta disso, e eles, creio, entendem perfeitamente à primeira. Afinal, também andaram na escola e aprenderam os significados das coisas. É claro que, uma vez por outra, há uma certa tendência para o esquecimento. Compreendo, já é matéria de há muito tempo e nem sempre estamos recordados das bases. Mas eu, querida, explico e relembro a quem quiser:
1. Nunca se coloca uma vírgula entre o sujeito e o predicado;
2. Qualquer número multiplicado por 1 é o próprio número;
3. Não é uma negação. Não é sempre não, independentemente da língua, da história e das pessoas.
Há coisas que simplesmente não são ambivalentes.
Já outras estão mais para o cinzento.

Os meus adoráveis ex dão-me alojamento quando visito o norte com um grupo de amigos, mandam-me mensagens do natal, sem nunca esquecerem os cumprimentos à minha família, dizem ao meu actual namorado que já foram apaixonados por mim e contam-me como vai a vida, quando não podem largar os estudos para dar um pulo ao cinema.

Os meus adoráveis ex são-no porque todos nos lembrámos de respirar. Porque não agimos como se nada fosse quando as coisas acabaram. Não continuámos a falar normalmente, a trocar sms, a fazer programas juntos e muito menos, em tempo algum, voltámos a ter alguma coisa. Mais fácil ou mais difícil, com mais ou menos sentimento, mais ou menos doloroso, um fim é um fim. Que depois venha um princípio faz todo o sentido, desde que algo completamente diferente. Se um dia me apaixonei, vou, mais tarde, guardar com carinho todas as boas memórias. São essas que contam quando refazemos o nosso caminho e tudo o que ficou para trás está longe, como se tivesse sido noutra vida, noutra em que não tínhamos a mesma idade, não pensávamos da mesma maneira e não estávamos apaixonados de novo.

Com os meus ex relaciono-me assim. E o meu palpite é que todos são, de facto, adoráveis, porque um dia me conheceram.

Nota: Sei que tenho desafios para responder, selos para ver e tudo mais. Prometo que trato disso este fim de semana.


"Deixe-me lá dormir"

Não gosto de acordar cedo. Nem sequer sou produtiva logo pela manhã. É simplesmente um desperdício fazerem-me sair da cama antes das 10h - altura do dia que já considero ser razoável para me fazer à vida. Mas está claro que a entidade patronal não pensa da mesma forma. Já na primária, liceu e faculdade se recusaram a partilhar da minha mentalidade. Tudo bem, uma pessoa aceita. Só não se habitua.

Nos últimos dias tem-me custado particularmente sair debaixo dos cobertores. Muito, muito, muito. Faço um esforço enorme para me arrastar até à casa-de-banho e lavar a cara com água gelada, geladinha. No Inverno faz frio. Muito, muito, muito. E tudo bem, uma pessoa aceita. Só não se habitua. Ao fim de toda uma rotina feita mode zombie on, lá saio eu de casa e corro para o carro, para não congelar. Depois passo os próximos 20 minutos no trânsito, a tentar manter os olhos abertos com música alta. A esta altura já se aperceberam do quão difícil é a minha vida matinal. Mas, porque sou amiga, e não gosto de grandes segredos, posso garantir-vos que ela ainda consegue ficar pior.

Hoje entrei no metro e consegui logo um lugar sentada à janela. (Wow!) Sem quaisquer problemas, apoiei a cabeça lateralmente e lá fechei eu os olhinhos, feliz da vida. A minha viagem subterrânea diária é de cerca de 17 minutos e só termina no fim da linha. Faltavam cerca de 3 estações para sair, quando, vinda do nada, com uma voz rouca, semi-aguda e, suspeito, um rebuçado de mentol na boca, uma senhora se aproxima de mim (mais do que eu gostaria), e me sussurra, assustadoramente: "Menina, oh menina". Acordei de um sobressalto, como já é costume quando alguém me faz algo do género (não, não é a primeira vez que me acordam assim) e olhei aturdida para a senhora. "Diga", respondi gentilmente (o mais que consegui, dadas as circunstâncias). "Vai sair aqui?". "Não, não vou". "Ah, está bem, era só para avisar".

Escusado será dizer que desperdicei três estações de sono de beleza. Não consegui voltar a adormecer e ainda fiquei com o perfume forte - demais - da senhora a pairar no ar e a fazer-me espirrar. Tudo bem, uma pessoa aceita. Só não se habitua. Compreendo as boas intenções mas não posso deixar de fazer o apelo:


Senhora estranha, com o carrapito desengonçado, voz esquisita e mala verde, para a próxima deixe-me estar, que eu estou bem.

Proponho que se institua um sistema: a partir de hoje, ninguém acorda ninguém nos transportes públicos. E pensando em todas as almas que se perdem no mundo do sono e acordam já longe da paragem de destino, sugiro que coloquem alarme no telemóvel assim que entram no dito cujo (metro, comboio, autocarro, etc).

Atenção: É favor não adormecer nos táxis porque ouvi dizer que ninguém nos acorda e o tempo contínua a contar.

"Oh boneca, quero-te é ao natural, como o iogurte!"

Se há coisa que eu não percebo é a mania dos homens insistirem que as mulheres ficam melhor ao natural. É claro que sabe bem ouvir um "és linda" quando acabamos de acordar e temos os cabelos em pé, as olheiras até ao queixo e o canto do olho cheio de remelas (ou ramelas?). É coisa de quem gosta, coisa que sabe bem. E nem digo que seja coisa absolutamente falsa. Ou por outra, não creio que seja de todo. Ninguém se torna bonito por encher a cara de base ou as pestanas de rímel. Porém, pode tornar-se mais bonito; mais apresentável vá. Não aos olhos de quem ama, que esses vêem para além do que é visível. Mas há todo um conjunto de outros seres que habitam este planeta e sim, reparam que existimos, uma vez por outra, quando chocamos com eles no metro, na esquina de uma rua, na porta de um café.

Se há coisa que eu gostava, mas gostava mesmo, era de assistir a um primeiro encontro, em que ele, todo pimpão, cheio de gel no cabelo (eles podem usar gel, mas nós não devemos borrar a cara toda), e todo perfumado (macho que é macho enche-se de perfume para que saibamos que está a chegar, assim que sai de casa), recebia uma ela, com os caracóis descontrolados, cara de quem acabou de sair da cama e vestida com o primeiro trapo que encontrou.

É como dizerem que não compreendem a pancada feminina pela roupa. Isto tudo porque eles compram o pacote que lhes parece mais giro, sem quererem saber bem o que lá tem dentro. Note-se que esta é uma afirmação desprovida de qualquer guerra superficial - profundo. Não é disto que se trata a conversa. A verdade é que gostam do resultado quando aparecemos cuidadas, perfumadas, bem vestidas, com umas pestanas longas e umas faces rosadas. Mas se querem saber como lá chegamos? Nem por isso. Se querem perder tempo a verem como lá chegamos? Muito menos. Se enchem a boca para dizer que não é necessário? Pois está claro que sim.

Eu não uso maquilhagem no Verão. O dourado do sol chega para me sentir feliz e não vejo muita necessidade em andar a espalhar pozinhos pela cara. É claro que se for sair à noite, uma sombra no olho ou um brilho nos lábios não faz mal a ninguém. Contudo, em pleno Inverno de faces pálidas e olheiras gigantes que me recordam que acordar às 7h00 é prejudicial para a minha imagem (e saúde mental), é indispensável abrir a bolsa mágica. É que vejamos, sempre que me esqueço, ou saio mais à pressa (sim, eu sei, isso nunca deveria acontecer), a primeira coisa que me perguntam no trabalho é se estou doente, depois de um "estás com tão mau aspecto".

Portanto, se há coisa que eu não percebo é a mania dos homens insistirem que as mulheres ficam melhor ao natural. Ficam sim, desde que eles não as vejam nessa figura. Mas eles é que sabem.

Nota: sou completamente contra as bonecas que às vezes encontramos por aqui e por ali, com a maquilhagem tão carregada que parece que saíram de um festival travesti. Também não aprovo um bronze falso, vermelho e esquisito em pleno Janeiro. Se há coisa que me faz comichão (e creio que lhes faz alergia) são mulheres com cara preta e pescoços e braços brancos. Tudo o que é demais enjoa.

Aprovado

De certeza que já todos repararam nos "quiosques" que agora há nos centros comerciais para arranjar as unhas e as sobrancelhas. Confesso que nunca me tinha apercebido bem da existência destes segundos. O "Nails qualquer coisa" já está por todo o lado e é difícil não dar conta, mas os da "Wink" são mais raros e nalguns casos - Colombo - mais escondidos. Eu cá andava com a pulga atrás da orelha, sobretudo depois de uma vaga de discussões na blogosfera sobre se era ou não boa ideia arranjar lá a cara. E digo a cara porque elas lá tratam de tudo: sobrancelhas, buço, queixo (para quê?) e outros pelos faciais. Tanto falei, li e comentei que a minha irmã me ofereceu um vocher no natal, para eu poder ir lá experimentar. Na mais pura das inocências reservei a tarde de 27 para o efeito e lá fui eu para o Colombo. Pois está claro que ninguém me atendeu porque as marcações estavam preenchidíssimas. Consegui hoje. E eis algumas conclusões:
  • Ficamos com a pele vermelha -Verdadeiro. Mas só dura uns minutinhos, esqueçam lá os exageros.
  • Temos que esticar a pele com as nossas mãos enquanto elas brincam com os fios de algodão na nossa cara - Verdadeiro, mas não custa nada.
  • No fim há uma massagem que sabe bem - Falso. A mim o creme/gel só fez arder a pele.
  • Não dói - Falso. Ai não que não dói. Não dói é pouco. Pronto, vá, sem mariquices: não dói mais do que arrancar com uma pinça. A diferença é que lá não é um a um, são vários ao mesmo tempo e sentimos o puxar da pele. Nada que não passe logo depois, obviamente.
Acho que a verdadeira vantagem reside no facto de estarmos ali 10/15 minutos quietas e sairmos com umas sobrancelhas verdadeiramente perfeitas. O meu receio era que mas deixassem finas demais e acabasse por se reflectir na fisionomia do meu rosto. Não aconteceu, bem pelo contrário. A rapariga que me atendeu foi bastante atenciosa e ia-me passando o espelho várias vezes para eu estar a par do trabalho. Ficaram delineadas, mantendo a forma original.

E sim, pensei que fosse algo desconfortável estar em público a tirar pelos da cara. Não foi. Não dei pelo tempo passar e até me ri quando duas chinesas que passavam perguntavam se podiam assistir. Fartaram-se de soltar "aahhs" de contentamento enquanto eu estava na cadeira, e sem saber deixaram-me mais tranquila com a aprovação. É sensivelmente o mesmo que alguém entrar no cabeleireiro onde estamos e ver que nos estão a cortar o cabelo.

Fiquei fã. Ainda para mais porque sei que tão cedo não vou ter que lá voltar, e que o que custa é a primeira vez.

De pé direito em 2010

Vila Nova de Milfontes ficou para trás, e com ela 2009 e um corte de cabelo antigo. Regressei ontem, já por volta da hora do jantar, cansada das limpezas de último dia. A casa era grande, nós éramos 10 e a desarrumação era mais do que muita. O forno custava a ficar quente, a lareira reclamava da falta de lenha, a louça era pouca e água quente para tomar banho foi mentira. E com muito mais contras do que prós o saldo não podia ter sido mais positivo. Os votos blogueiros de boas entradas chegam atrasados mas com toda a pompa e circunstância; como o meu jantar de ano novo, aliás, que só começou depois da meia noite. Não houve tempo para as passas, nem para os 12 desejos, ou para balanços do ano que passou. Restou-me abraçar 2010 e dizer-lhe olá.

Todavia, um olá não basta quando regresso a casa, e mesmo consciente de que andava com os sonos trocados, e que hoje seria segunda-feira, dia de trabalho, decidi dar um salto ao centro comercial (meia hora antes das lojas fecharem), só para ter a certeza que sim, os saldos já começaram. Posto isto só me resta apertar as bochechas ao novo ano, enquanto lhe sorrio.

P.S. Nem ruivo, nem preto. Parece que a tonalidade se chama "ameixa". Um grande obrigada a todas as sugestões.
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