Isto está bonito está!

                                                                                                                    Cam Gigandet

Ao bem-parecido que teima em estacionar o carro à frente do meu todos os dias, bloqueando-me qualquer hipótese de fuga:

1.Às segundas e terças-feiras, para além de dias de trabalho que começam cedo e arrancam a semana, tenho aulas de mestrado e muito pouco tempo para me deslocar entre o escritório e a escola. É meia hora para correr para o metro, apanhar o metro, sair do metro, correr para o carro, apanhar trânsito, estacionar o carro e correr para a aula. Eu já chego suficientemente atrasada sozinha. Agradeço, mas não preciso da sua ajuda nesse sentido. Se é para continuarmos com este mexe-mexe de carros, então existem mais três dias da semana em que eu nem sequer trago o meu para Lisboa. Não custa nada, e ainda fica a ganhar: 2-3.

2. Estamos no fim do mês e em tempo de vacas magras. Quero lá eu saber que trabalhe por perto e que me deixe o seu nome e número de telemóvel como indicações de contacto para o caso de querer tirar o meu carro do espaço que bloqueou (porque haveria alguém de querer fazer algo semelhante? que é lá isto de se querer ir embora no seu próprio carro?). Eu sou 91. 91! Como tal, não me apetece ter que esperar uma eternidade para que desça - esperando, toda eu, provavelmente transpirada e de mau aspecto face às correrias - e ainda ter que gastar dinheiro para que o faça porque é de outra rede.

3. Já lhe ocorreu que as pessoas podem não gostar de dar assim o seu número a perfeitos desconhecidos? Pois que podia telefonar de número anónimo, sim. Podia, se eu fosse rica e se quisesse andar a gastar dinheiro em chamadas desnecessárias.

4. Eu percebo que a cidade seja pequena para tanto carro, a sério que sim, é por isso que ainda não tentei passar por cima do seu. Mas isto assim não vai durar. A relação está descompensada: eu espero, eu gasto, eu desespero e eu volto a gastar no dia seguinte. No mínimo, que se vão deixando uns livrinhos, uns cds, uns bilhetes para concertos e outros que tais no meu pára-brisas. Ou ofertas de limpeza ao carro. São só ideias, no mínimo justas!

É isso ou para a próxima buzino até não sentir o mindinho.

Outono?


Custa-me muito adormecer com a chuva.

Gosto das tardes de sofá e cobertores, quentes e pachorrentas, mesmo com a água que cai lá fora. Para mim, os domingos são todos assim e só existem no Inverno. No Verão temos dois sábados, dois dias para sair, passear, apanhar sol e correr na praia. Domingo é de ronha verdadeira, daquela que só chega com o frio. E eu gosto disso, a sério que sim. Não que esteja preparada como, de resto, todo o mundo parece estar para receber estes dias de braços abertos, até porque me cheira que fiz uma distensão lá para a região do ombro. Sou muito fã do sol. Mas enfim, se é para voltarem com os domingos em cheio, também não me faço de esquisita. O meu problema são as noites, as voltas na cama e uma tempestade que teima em fazer-se ouvir no telhado. E isso, para quem dorme num sótão, é suficiente para deixar uma pessoa louca, inconstante e rezingona. A mim, o mau feitio, dá-me para escrever ou resmungar. Uma ou outra, ou as duas em simultâneo. Se for com uma caneca de chá de limão ao lado, mel no fundo e pau de canela para mexer, melhor ainda.

Matrículas roubadas - parte II


Eu e o pai, sob uma chuva torrencial e um vento que assusta, quando finalmente chega a nossa vez de abastecer:

Não está a dar, vou lá dentro reclamar.
(menos de um minutos depois)
Dá aí o papel da polícia, sff. Rápido! Diz-me que o tens no porta-luvas como te disse para fazer!!
Calma, pai. Está aqui.
Está todo sujo.
E o que é que isso interessa? Para que é que o queres, afinal?
O homem bloqueou-me o abastecimento porque diz que esta matrícula já abasteceu duas vezes em bombas deles sem pagar, e não muito longe daqui. Numa usaram um BMW e noutra um Seat Ibiza. Tenho que ir lá mostrar-lhe a declaração da esquadra porque ele já está a comunicar com a polícia.

E é assim a minha vida. Agora de cada vez que for à bomba tenho que provar a minha inocência.
Ainda bem que à primeira foi com o pai, assim já sei: daqui para a frente, só funciono em pré-pagamento.

Só uma pequena, pequenina e minúscula investigação...



Quem é que aqui me consegue dizer algo positivo sobre a EMEL? Uma palavra que seja. Uma história, um episódio, o que vos vier à cabeça. Vá, se só houver coisas negativas, que venham elas também.
Muito agradecida.

Há coisas que me assustam [e só elas me fariam cá voltar quando já deveria estar a dormir]

 

Começa por ser mau, se pensarmos em todos os recentes suicídios que nos chegam em artigos e reportagens, mais ou menos trágicos, sobre a Grécia. Apenas piora quando pensamos que para cá chegar o mesmo nível desespero é apenas uma questão de tempo. Mas depois navegamos por aqui e por ali, entre perdidos e achados da Internet, e rapidamente percebemos que o pânico, o perigo, a exaltação e os graves problemas estruturais estão por todo o lado, por todas as nações grandiosamente "civilizadas". E isso, isso só nos torna uma raça cada vez mais assustadora.

* É claro que a preocupação dos últimos tempos é antes perceber como é que a Cátia da Casa dos Segredos não sabe onde é África. A sério que a minha página inicial de Facebook está repleta de comentários indignados de quem está a acompanhar o programa ao segundo. É simplesmente maravilhoso. Metade dessas pessoas deconhece por completo a última ronda do discurso de austeridade (não posso chamar-lhes medidas quando não vejo qualquer acção por parte daquele que as prolifera). E não, não é assim o nosso país, não é assim o povo português. Assim são as desculpas de sempre, é diferente.

Amanhã é de novo segunda-feira



Não sei o que tem passado a uma maior velocidade: se os cinco dias de trabalho ou se os dois de pseudo-descanso. Cá por casa ainda se ouvem gargalhadas sonoras como se fosse sexta à noite. O meu irmão anda pelos corredores de óculos escuros, gel no cabelo e calças de pijama (ele teima em achar que são "fixes" e próprias para a escola). E eu, assim devagar, como quem lamenta o fim-de-semana que fica para trás, preparo a mala para o ginásio. Amanhã recomeçam-se os treinos abandonados em Novembro do ano passado, e as saudades que eu tenho dessa rotina! Acho que é desta - espero que sim -  que estabeleço uma boa relação com um  novo estabelecimento e esqueço do vez o meu ex (que era tão bonitinho, simpático e abria às seis da manhã, para minha felicidade). Ainda não ultrapassei a distância que o novo trabalho nos impôs, mas sei que não há como manter-me no passado e batalhar por algo que já não existe.

A ver vamos. Para já, aprecio a filosofia low-cost.
Estou a pensar em body pump às 7h15.

Querem ver que agora só se diz mal porque está na moda?


Para renovar o meu passe só precisei de um papel assinado e de um funcionário disposto a olhar para ele. Olhou, acenou, inseriu o meu passe num daqueles terminais normalíssimos para pagamentos com cartão, juntou-lhe um código qualquer e estava feito: em menos de um minuto era de novo o meu passe, o meu querido e desejado passe. É claro que, posto isto, fiquei esclarecida quanto à necessidade de apenas o poder fazer em duas estações de metro. Ou é Campo Grande ou é Marquês; nem mais, nem menos.

Não conheço os procedimentos internos, portanto vou  agir como se não me parecesse ridículo: pode haver uma qualquer explicação que deite o meu cantar de galo por terra abaixo. Ainda assim, não me parece correcto que eu, ou qualquer outro cliente da rede, tenha que pagar bilhetes para andar para trás e para a frente, quando o poderia bem fazer perto de casa. É que, convenhamos, se estamos a tentar tratar de um passe, é porque nos deslocamos em transportes públicos. E se tenho um terminal perto de mim, custa-me menos ir até lá, do que até ao fim do mundo.  Sobretudo, se pensarmos que temos que sair do metro (passar nos torniquetes que nos eliminam mais uma viagem com o cartão de papel ) para nos podermos dirigir aos postos de informação, já que estão sempre colocados na parte de fora. Pois que sim, que faz sentido que assim seja para todos aqueles que lá compram bilhetes - se estivessem dentro, como é que as pessoas faziam? [Vamos lá fingir que não poderiam ter sido colocadas no limiar, de forma a existir atendimento para os dois lados] Mas então essa necessidade também deverá ser válida para todas as estações que não têm absolutamente ninguém aos balcões. Se têm que ficar de fora para auxiliar quem quer entrar, porque não existe quem o faça? Numa ou noutra vemos um senhor mais simpático, responsável pela zona, a ajudar com as máquinas. Até pode ter as chaves do posto, mas não é lá que trabalha. E de que nos serve isso para quem quer discutir modalidades, preencher formulários, fazer reclamações ou renovar as porcarias dos passes? Digo-vos eu, do coração: de nada (com todo o respeito por aqueles que lá estão a fazer o seu melhor, ainda que não possa ser muito).
Bem sei que sou chata, mas não consigo evitar pensar que, com tanta senhora crise, não haja um único funcionário, na maioria dos sítios, para nos ajudar com a burocracia. E o Metro, senhores, o Metro é das organizações mais burocráticas e complicadas que por aí anda. Basta que experimentem por lá pôr os pés todos os dias, durante uma ou duas semanas, e logo enchem uma mão de pedidos de auxílio (estrangeiros, não-utilizadores, idosos....). É tudo muito confuso, muito pouco explicado e muito chato, ainda mais do que eu.

Good morning sunshine


Olá sra. do metro. Talvez me pudesse ter dito, meia hora antes, quando me viu abanar o papel na fila, que para renovações de passe estava restrita à estação do Campo Grande. E olá sra. caixa multibanco. Para a próxima, agradecia que emitisse os talões comprovativos de transferência à 1.ª, em vez de me mandar às 2.ªas vias, sem qualquer outra explicação. Mas quem é que está a reclamar? Bom dia!

De costas voltadas


De há uns tempos para cá que ando em guerra com o meu ordenado: quanto mais eu pareço querer esticar, mais ele parece querer encolher. Tenho para mim que temos visões do mundo muito contraditórias.

Há dias assim


Hoje refazia tudo. Para começar, tinha optado por ficar na cama o dia inteiro. Nada de banhos e lavagens de dentes, nada de escolhas de roupas ou corridas para o metro e do metro para o trabalho. Nada de nada, eu e a almofada apenas. É que vai-se a ver e uma pessoa perde anos de vida em menos de 24 horas. E eu ainda nem estou para aqui a falar dos enjoos com que saio das carruagens da linha amarela por ir esmagada contra a porta, entre suores e outros odores, a maior parte do tempo. Eu, que atravesso praticamente todas as estações. Há dias em que refazia tudo ao optar simplesmente por não fazer nada. Hoje seria um deles.

E este tempo? Vá-se lá perceber.

É tudo uma questão de números [e eu até sou mulher das letras]

                                                                                                        "The Vampire Diaries"

Existem 7 mil milhões de pessoas em todo o mundo. Uma parte significativa, ali quase a rondar os 11%, anda pela Europa, feliz da vida, a ver se abre falência e perde o euro, assim como quem não quer a coisa. Portugal, pequeno mas de nariz torcido,  aponta para os 10 milhões e pouco e tal. E se reduzirmos a coisa a Lisboa - que é bem verdade que eu gosto do Porto e suspiro pelo Algarve, mas sou de região saloia e senhora de trabalho na capital - rondamos os 545 245 habitantes. Já nem vou às cidades, bairros e grupos de amigos (repensa a tua conta de Facebook e dá-te espaço para te sentires pequenino: o mundo é bem maior do que uma rede de 300 desconhecidos). Poderia fazê-lo. Neste ponto, contudo, não serviria de muito explicar que as 10/20 pessoas com quem mais nos damos, aquelas com quem nos cruzamos no trabalho, nas festas de anos, em reencontros familiares ou com as ex-turmas da faculdade, são pontinhos, pontinhos apenas. Na prática, somos nós na nossa vida, rodeados de meia dúzia de pontos pingados, mais ou menos tortos, mais ou menos saturados. E no meio disso tudo, no meio de tanto número e prova racional, enchemos a boca para dizer que ele, ela, o cão, gato ou o periquito eram a nossa alma gémea. A nossa única, exclusiva e última oportunidade.

Ora deixemos lá os números e atentemos nas palavras: é "a" alma - uma, portanto. Gémea, todavia; o que me parece absolutamente delicioso, sobretudo se pensarmos que "igual" é o conceito que quase ninguém procura na pessoa com quem quer passar o resto da sua vida. Mas vá, uma abébia - vou fingir que suponho que o "gémea" é no sentido de quem completa, como os irmãos que sentem e pressentem o que o outro precisa. Por fim, a "alma" (há lá coisa mais bonita), essa ideia fascinante da nossa substância pensante, falante e que sente como algo que nos transcende, corporalmente falando, claro. Assim mais ou menos como um fantasma - deixo-os de parte por uma questão de simplicidade de contas. Mas voltemos ao que interessa, porque eu tenho uma teoria e, embora não pareça, estou aqui a tentar provar qualquer coisa.

Partindo do princípio que alguém assume ter encontrado a sua alma gémea, e que a danada da alma um dia descobre que não é gémea, mas trigémea, e parte para outra, ou que se revela mais metafórica do que seria de esperar, sem conteúdo ou o que aprofundar; ou ainda que de alma tinha tudo, mas que gémea nem vê-la, qual é realmente o grande drama? Voltem lá ao primeiro parágrafo e pensem em quantas almas gémeas não andarão por aí espalhadas só para vocês. Mesmo que ele/ela sejam perfeitos, aquilo que sempre quiseram numa relação, a lotaria pintada de cor-de-rosa com purpurinas; mesmo que assim seja, apenas podemos gabar-nos de saber que tivemos a sorte de encontrar uma das nossas almas aqui tão por perto, em Lisboa, Portugal, Europa. Imaginem só quanto não teriam que percorrer para encontrar todas as outras, todas aquelas entre os 7 mil milhões de pardais que já somos por todo o mundo. E é isso que tento explicar a quem sai de uma relação com um coração aos pedaços: há mais lá fora. Não aquela treta de conversa do "há muito peixe no mar", que homens e mulheres não se pescam para deitar num prato. O Homem ama, ou aprende a amar, conforme o caso. E pelo caminho, se for bem sucedido, aprende a aprender, a crescer, a viver e a levantar-se. A sério: como seria possível existir apenas uma pessoa para cada um de nós em todo o mundo - todo o mundo! - e ser exactamente aquela que era amiga-do-amigo-do-vizinho-do-colega-da-faculdade-que-se-cruzou-connosco-na-mercearia-do-senhor-que-era-amigo-do-pai-porque-o-tio-fez-o-casamento-da-avó? E se pensarmos na quantidade de vezes que nem é assim tão difícil, na quantidade de vezes que é alguém que sempre esteve por perto, então mais encurtamos o círculo e contrariamos os milhões de probabilidades existentes de estarmos errados.

Eis o que eu acho: deve existir, pelo menos, um alma gémea por distrito; isto, claro, se nos restringirmos a território nacional. E não me interpretem mal: não acho que se deva desvalorizar qualquer uma delas por sabermos que há por aí outra, apenas acreditar que existem, porque é essa a lógica. Em teoria, todas elas terão a mesma capacidade para nos fazer felizes, para nos colocar um sorriso no rosto, fazer querer sonhar ou construir uma vida a dois. Não há rainha das almas gémeas e, quanto a isso, podemos ficar descansados. O que eu acredito piamente que exista são fases: fases nossas, fases em que estamos, fases em que nos entregamos, fases em que crescemos ou em que desaprendemos, fases em que nos queremos encontrar ou em que nos queremos perder, fases para sermos quem somos ou para sermos para os outros, fases para sermos felizes e fases para acharmos que ainda nos falta tudo. Temos nós e têm elas, as alminhas deste mundo. E a única coisa que de realmente mágico acontece nesta matemática é descobrirmos a nossa alma gémea numa fase em que a queiramos encontrar, e em que a mesma coincida com a fase em que ela quer ser encontrada. No fundo, é tudo uma questão de sintonia e isso, isso sim é o verdadeiro cabo dos trabalhos.

É por isso que te digo M, como digo a quem mo pergunte na mesma situação, que a fase pode bem já ter sido de sintonia. Que a perfeição já esteve por lá porque, afinal de contas, foram duas almas gémeas que tiveram o privilégio de se encontrar. Mas quando as coisas mudam, e basta apenas mudar para um dos lados, a fase deixa de ser a mesma e o encaixe de funcionar. Aí, das duas uma: ou se trabalha a sintonia, que exige esforço, vontade e sentimento em doses industriais, ou se assume que para se continuar era preciso ouvir a mesma canção, quando as batidas já há muito que são diferentes. 
© POST-IT AMARELO 2014 | TODOS OS DIREIROS RESERVADOS

PARA MAIS INFORMAÇÕES:
♥ dopostit@gmail.com
♥ https://www.facebook.com/postit.amarelo
imagem-logo