Páginas soltas


"Ela gostava de pensar que o dia seguinte seria tanto mais assustador quanto inesperado. Dizia-o a quem o quisesse ouvir. Na realidade, porém, eram as coisas demasiado definidas que a deixavam com medo. Saber exatamente o que estaria por vir: tudo aquilo que adiara por dias e dias. Anos, quem sabe? Costumava gabar-se dos acordares fáceis e despachados. Mentia com todos os dentes. A coragem faltava-lhe, quase sempre, para tirar a cabeça da almofada e erguê-la para um novo desafio. Ainda assim, escolhia meticulosamente o seu melhor fato, o mais vivo, com o corte mais elegante. Perdia o olhar pelas centenas de sapatos, e optava pelo mesmo par de sempre. Aquele que tinha em dez cores diferentes, por gostar tanto. Aquele que só usava em preto, porque dava com tudo. 

Deixava-se ficar por um bom tempo em frente ao computador. Às vezes - quase sempre - para nada. Deambulava pela Internet, como quem o faz por rotina. Como quem olha para a TV enquanto dialoga com o coração. E às vezes - quase sempre - o coração pedia-lhe que o ouvisse. A trajetória da manhã incluía duche longo, com tempo para champô, duas vezes, e três minutos de máscara. Dava para duas músicas da primeira listagem que criara no Spotify, antes de ouvir a publicidade. Pensava sempre em fazer o upgrade para um serviço premium, que não gastasse os seus preciosos minutos de descontração matinal com vozes que não queria ouvir. Todavia, sabia melhor que ninguém que era impossível perturbar quem já estava perturbado, ou acabar com a descontração de quem apenas finge estar descontraído. Existia algo de familiar no ouvir, repetido, daquela voz, que a acompanhava sem receios, pudores ou desculpas. Sem nunca falhar. Continuava a dizer-se irritada porque era mais fácil. É sempre mais fácil não admitir.

Ela gostava de acordar muito cedo, mesmo com todos os medos. A falsa segurança, da ideia de ser a primeira, confortava-a. Saber que poderia concertar tudo antes do momento em que esperavam que o fizesse, deixava-a estranhamente tranquila. Tanto quanto quem está, sabendo que não passa de uma mentira. Talvez por isso se tentasse mostrar desconfortável por demorar cada vez mais tempo. Por perder sempre a prioridade, única e exclusivamente por sua culpa. Porque tão rapidamente lhe parecia certo o ataque pela madrugada, quanto o anoitecer, que enchia as ruas de pessoas e a protegia, no meio da multidão".
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