Sexta-feira

Sabem quando o dia ainda nem sequer começou e já estamos cansados? Quando sonhamos com uma manta, um sofá e uma caneca gigante de chá e é tudo o que queremos para o nosso fim de noite? É mais ou menos nesse estado que estou - há uma semana. Mas é dezembro e há jantares a toda a hora, com os amigos de sempre, os habituais e os que só revemos nesta altura. E com isto não me lembro de chegar a casa sem ser com todos a dormir, ainda com pedalada mas sem ninguém para me responder. 

Depois, há também um apartamento novo pelo meio, que eu visito todos os dias religiosamente para verificar como se encontra. Como se tivesse vida própria e pudesse fazer asneira durante a madrugada. Falhei a quarta-feira e fiquei com saudades. Há uma mudança iminente, à espera do meu ok para acontecer, e tantos, tantos planos por terminar. E há muita curiosidade, de todos os que ainda não conhecem e querem conhecer. Por isso mesmo, sem mesa de sala ou cadeiras, os jantares vão-se fazendo entre quatro paredes-novidade, com gargalhadas em banda sonora e regados a vinho e boa disposição. Que é o que me volta a esperar hoje. E eu sou uma ingrata de meia tigela por reclamar de falta de tempo para fazer nada, quando tudo o que vem, e tudo o que acontece, é tão bom.

Black Friday

Se há coisa que eu gosto é de comprar online. Roupa, móveis, maquilhagem, tachos. O que for. É um conforto tremendo. E sim, claro que muito me agrada tocar nas coisas, sentir os tecidos e os materiais, experimentar, visualizar e tudo mais. Mas são experiências completamente diferentes que não podem ser comparadas e – na minha ótica – nem sequer substitutas uma da outra. Hoje, por exemplo, queria muito aproveitar os descontos (mínimos) do dia para comprar um casaco que já experimentei centenas de vezes, escolher uma mala e deitar olho aos ténis que tenho andado a namorar. Inversamente, vontade de me perder no caos das lojas estava pelas horas da morte. Sobretudo quando há um fim de semana cheio de planos pela frente. Há dias em que a tenho. Há dias em que preciso do barulho, da música alta, das luzes estranhas e de toda a confusão. Outros em que me apetece sentar no sofá, descalça, e navegar pelos sites num momento de puro lazer.

Há riscos. Depois não se gosta, ou não fica bem (no corpo, na cozinha ou na sala). Não é como se esperava, afinal entretanto vimos algo melhor. Por isso mesmo, compro quando conheço as políticas de devolução e/ou troca e faço delas o uso que eu quiser, e ao qual tenho direito. Se me chega algo a casa que não está bem, ou por defeito, ou para mim, resolvo num cómodo prazo (habitual) de 30 dias. Se tudo estiver do meu agrado, é maravilhoso poder – sobretudo no que toca a roupas – experimentá-las logo no nosso quarto, com os nossos espelhos e todos os conjuntos que realmente usamos.


Também há momentos em que compro onde nunca comprei e não faço bem ideia de como as coisas podem funcionar face a situações menos positivas. Nesses momentos arrisco tudo, em pequenas quantidades financeiras, e seja o que a loja – e os correios – quiserem! Creio ser precisamente pela descontração que nunca me desiludi. Pelo contrário. 

Em modo inspirado

Há dias em que não sei porque faço o que faço. Se fui eu que escolhi esta profissão ou se, por circunstância e oportunidade, foi ela que me escolheu. Há muitos dias em que me sinto embalada por uma vida comum, estável e que se faz com um despertar todas as manhãs, à mesma hora. E depois há outros, em que todo este mundo da comunicação me fascina tal e qual criança em noite de Natal. Em que chego a casa com o bichinho no estômago e as ideias na cabeça. Em que me deixo entusiasmar por completo por uma coisa que já vi e ouvi dezenas e dezenas de vezes. Dias em que penso: "Eu nunca poderia fazer outra coisa que não isto". 

Eu nunca poderia conceber uma vida sem escrita. Sem palavras e sons. Sem a pressão, tantas vezes ingrata e tão pouco reconhecida, da produção de conteúdos completamente díspares nos mesmos 60 minutos. Sem o esforço mental de conseguir mudar rapidamente para outro assunto, manter a criatividade e cumprir o objetivo do texto. Nunca poderia conceber uma vida na qual não lidasse, de forma tão próxima, com outras pessoas. Com o público da minha empresa ou projeto. Com aqueles singulares que tantas vezes fazem mais barulho do que qualquer multidão; aqueles que estão do outro lado e que são quem eu realmente quero ouvir.

Ter o privilégio de fazer tudo isto num momento da história em que as formas de comunicação estão em mudança permanente, e em que o paradigma digital chegou de assalto para derrubar as outras plataformas, é incrível. Nasci com computadores pessoais ainda em fase embrionária. Quase três décadas depois, escrevo mais rápido num teclado do que com uma caneta. Cresci a redigir blogues, abandonando cedo os diários. A ver o planeta através da Internet. A aprender, enquanto utilizador final, como funcionavam as primeiras redes sociais. Hoje, é delas que me sirvo para passar as informações que quero. Mas há ainda tanto por descobrir, há ainda tanto para testar, compreender e aprimorar que as possibilidades são infinitas. É que, mesmo num ecrã de computador, é o comportamento humano que estudamos. E eu não poderia ser mais grata por o poder fazer no meu dia-a-dia e chamar-lhe de "trabalho". 
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