Há sempre um misto de sentimentos quando a questão é aquilo que queremos versus aquilo que devemos fazer. Quase sempre, aquilo que quero garante muito pouco quando comparado com aquilo que já faço. E é preciso fazer para poder pequenas coisas, como sair de casa ou ir até um país vizinho. E depois, vai-se a ver e na realidade eu quero ainda mais estas duas últimas coisas. E por tanto querer, não devo enveredar por outros queros. Temporariamente, claro, que a vida é feita desta perseguição de gostos que vão muito além dos do Facebook. Mas são escolhas que não deixam de nos moer, aos poucos e, sobretudo, quando a realidade que conhecemos estás prestes a mudar. Possivelmente, para pior. Não me entendam mal. Não vivo uma vida que não me pertence. Tendo, porém, a pensar em todas aquelas que posso tentar. Não somos todos assim? Bem, talvez não. Eu sou. E dou por mim, volta na volta, a querer construir algo próprio, mais meu, que me dê uma satisfação que nunca irei buscar a outros. Uma liberdade diferente. Um horário adequado à minha produtividade. Mais oportunidades para escrever. Mesmo com todas as vozes que logo gritam, ecoando na minha cabeça, que a vida não está fácil. Não está, e eu não me importo. Porque um dia, mesmo não estando, posso já ter bases para a complicar ainda mais, bem ao meu gosto.
A não ser que me peçam segredo...
Eu gostava de ser como aquelas pessoas que guardam para si informação privilegiada só para mais tarde poderem dizer 'estava só a ver quando me contavas'. Como aquelas mulheres, que descobrem alguma coisa sobre os namorados, maridos, companheiros e periquitos (bem, talvez não sobre estes últimos), e aguardam pacientemente que sejam eles a revelar-lhes a novidade. Porque deveria ter sido assim desde o começo, porque cabe-lhes a alegria de contar ou simplesmente para os apanharem em falso. Mas não sou. Nem para o bem, nem para o mal. Sei de uma coisa que pressinto não dever ter sabido assim e vou a correr desbroncar-me toda e confrontar a pessoa. Mesmo que ela esteja a preparar algum tipo de surpresa, ou a aguardar por um momento melhor para ma revelar. Qual boi a puxar a carroça. Não quero nem saber, vou apenas em frente e sempre com a mesma força.
Eu não sou a pessoa mais paciente do mundo. Não para estas coisas.
Não há nada a fazer.
Páginas soltas
"Ela gostava de pensar que o dia seguinte seria tanto mais assustador quanto inesperado. Dizia-o a quem o quisesse ouvir. Na realidade, porém, eram as coisas demasiado definidas que a deixavam com medo. Saber exatamente o que estaria por vir: tudo aquilo que adiara por dias e dias. Anos, quem sabe? Costumava gabar-se dos acordares fáceis e despachados. Mentia com todos os dentes. A coragem faltava-lhe, quase sempre, para tirar a cabeça da almofada e erguê-la para um novo desafio. Ainda assim, escolhia meticulosamente o seu melhor fato, o mais vivo, com o corte mais elegante. Perdia o olhar pelas centenas de sapatos, e optava pelo mesmo par de sempre. Aquele que tinha em dez cores diferentes, por gostar tanto. Aquele que só usava em preto, porque dava com tudo.
Deixava-se ficar por um bom tempo em frente ao computador. Às vezes - quase sempre - para nada. Deambulava pela Internet, como quem o faz por rotina. Como quem olha para a TV enquanto dialoga com o coração. E às vezes - quase sempre - o coração pedia-lhe que o ouvisse. A trajetória da manhã incluía duche longo, com tempo para champô, duas vezes, e três minutos de máscara. Dava para duas músicas da primeira listagem que criara no Spotify, antes de ouvir a publicidade. Pensava sempre em fazer o upgrade para um serviço premium, que não gastasse os seus preciosos minutos de descontração matinal com vozes que não queria ouvir. Todavia, sabia melhor que ninguém que era impossível perturbar quem já estava perturbado, ou acabar com a descontração de quem apenas finge estar descontraído. Existia algo de familiar no ouvir, repetido, daquela voz, que a acompanhava sem receios, pudores ou desculpas. Sem nunca falhar. Continuava a dizer-se irritada porque era mais fácil. É sempre mais fácil não admitir.
Ela gostava de acordar muito cedo, mesmo com todos os medos. A falsa segurança, da ideia de ser a primeira, confortava-a. Saber que poderia concertar tudo antes do momento em que esperavam que o fizesse, deixava-a estranhamente tranquila. Tanto quanto quem está, sabendo que não passa de uma mentira. Talvez por isso se tentasse mostrar desconfortável por demorar cada vez mais tempo. Por perder sempre a prioridade, única e exclusivamente por sua culpa. Porque tão rapidamente lhe parecia certo o ataque pela madrugada, quanto o anoitecer, que enchia as ruas de pessoas e a protegia, no meio da multidão".



