A não ser que me peçam segredo...


Eu gostava de ser como aquelas pessoas que guardam para si informação privilegiada só para mais tarde poderem dizer 'estava só a ver quando me contavas'. Como aquelas mulheres, que descobrem alguma coisa sobre os namorados, maridos, companheiros e periquitos (bem, talvez não sobre estes últimos), e aguardam pacientemente que sejam eles a revelar-lhes a novidade. Porque deveria ter sido assim desde o começo, porque cabe-lhes a alegria de contar ou simplesmente para os apanharem em falso. Mas não sou. Nem para o bem, nem para o mal. Sei de uma coisa que pressinto não dever ter sabido assim e vou a correr desbroncar-me toda e confrontar a pessoa. Mesmo que ela esteja a preparar algum tipo de surpresa, ou a aguardar por um momento melhor para ma revelar. Qual boi a puxar a carroça. Não quero nem saber, vou apenas em frente e sempre com a mesma força. 

Eu não sou a pessoa mais paciente do mundo. Não para estas coisas.
Não há nada a fazer.

Páginas soltas


"Ela gostava de pensar que o dia seguinte seria tanto mais assustador quanto inesperado. Dizia-o a quem o quisesse ouvir. Na realidade, porém, eram as coisas demasiado definidas que a deixavam com medo. Saber exatamente o que estaria por vir: tudo aquilo que adiara por dias e dias. Anos, quem sabe? Costumava gabar-se dos acordares fáceis e despachados. Mentia com todos os dentes. A coragem faltava-lhe, quase sempre, para tirar a cabeça da almofada e erguê-la para um novo desafio. Ainda assim, escolhia meticulosamente o seu melhor fato, o mais vivo, com o corte mais elegante. Perdia o olhar pelas centenas de sapatos, e optava pelo mesmo par de sempre. Aquele que tinha em dez cores diferentes, por gostar tanto. Aquele que só usava em preto, porque dava com tudo. 

Deixava-se ficar por um bom tempo em frente ao computador. Às vezes - quase sempre - para nada. Deambulava pela Internet, como quem o faz por rotina. Como quem olha para a TV enquanto dialoga com o coração. E às vezes - quase sempre - o coração pedia-lhe que o ouvisse. A trajetória da manhã incluía duche longo, com tempo para champô, duas vezes, e três minutos de máscara. Dava para duas músicas da primeira listagem que criara no Spotify, antes de ouvir a publicidade. Pensava sempre em fazer o upgrade para um serviço premium, que não gastasse os seus preciosos minutos de descontração matinal com vozes que não queria ouvir. Todavia, sabia melhor que ninguém que era impossível perturbar quem já estava perturbado, ou acabar com a descontração de quem apenas finge estar descontraído. Existia algo de familiar no ouvir, repetido, daquela voz, que a acompanhava sem receios, pudores ou desculpas. Sem nunca falhar. Continuava a dizer-se irritada porque era mais fácil. É sempre mais fácil não admitir.

Ela gostava de acordar muito cedo, mesmo com todos os medos. A falsa segurança, da ideia de ser a primeira, confortava-a. Saber que poderia concertar tudo antes do momento em que esperavam que o fizesse, deixava-a estranhamente tranquila. Tanto quanto quem está, sabendo que não passa de uma mentira. Talvez por isso se tentasse mostrar desconfortável por demorar cada vez mais tempo. Por perder sempre a prioridade, única e exclusivamente por sua culpa. Porque tão rapidamente lhe parecia certo o ataque pela madrugada, quanto o anoitecer, que enchia as ruas de pessoas e a protegia, no meio da multidão".

Mensagens da tecnologia

O meu outlook esteve as duas primeiras horas da manhã sem funcionar. 

Creio ter sido a forma que encontrou para me dizer que hoje deveria, mesmo, ter ficado em casa. 

Setembro e o medo

Kate Winslet por Mario Testino

De há 3 anos para cá, setembro traz-me apenas más notícias. É daqueles meses que nos põe à prova, e não apenas porque o verão terminou. Costumava gostar do regresso e da sensação familiar da rotina. Hoje, sei que mais facilmente reencontro o inesperado. Um destes setembros trouxe a notícia de uma doença grave. Não minha, mas suficiente próxima para ter mudado a minha vida. Entre empregos e desempregos, preocupações familiares e estilos de vida reformulados, tudo passou a ser diferente do que era até então. Tudo ficou marcado por uma vida que não volta mais.

Lembro-me muito bem de no ano passado ter começado o mês assustada. Pensava muitas vezes que os dois anteriores tinham sido os mais dificeis de sempre e não queria voltar a passar pela mesma angústia sem estar preparada. Em vão, tentei pintar todos os cenários e assegurar que poderia controlar o rumo de tudo. Esperei, consciente. Esperei, esperei e esperei. Nada. Um arrufo de namorados pelo meio, quando já não contava. Mesmo assim, nada - repito - que possa caraterizar sequer perto do nível de choque dos outros. E pronto, outubro chega e a ideia da maldição de setembro fica enterrada comigo a dançar por cima da campa.

Hoje, setembro como eu o conheci nos últimos anos voltou, quando eu já não o antecipava, quando eu já o iniciei sem qualquer lembrança passada a marcar os meus dias. Não voltou com a mesma dor, não da mesma forma direta, mas com todo o mesmo sofrimento de muitos dos que me rodeiam. E custa na mesma, sentir através daqueles de quem gostamos. Oh se custa. O trabalho ficou para trás, a cabeça já não estava lá mesmo, e o dia foi dedicado a tornar tudo um bocadinho menos difícil. 

Em 3 setembros, 4 com o de hoje, recordo apenas um sentimento comum. Quer nos dias malgrados, quer na sua antecipação: o de cansaço. Um cansaço extremo que não passa. Talvez porque saiba que tenho que recomeçar, e é um recomeço muito mais batalhador do que o de quem volta ao escritório do costume. É um recomeço, mais uma vez, de uma nova forma de estar na vida.

Conversa de chata


Estou em pulgas pelo lançamento oficial do IOS7. Quero ver também o iPhone 5S e, sobretudo, saber se vem realmente um 5C. Em qualquer outra marca, poderia conquistar-me, mas com as cores garridas que se prevêem, ter um iPhone neste modelo é o mesmo que anunciar ao mundo uma escolha plástica e de baixa qualidade, só porque é mais barata. Um bocadinho na lógica de “não tenho o a sério, mas diz iPhone na mesma”. Para isso, porque não um outro smartphone qualquer, com o mesmo custo e melhores caraterísticas? Só porque não vai ter a maçã? Estou de pé atrás e pronto, ainda que curiosa e expectante numa apresentação que destrone estas convicções. 

O IOS7 vem com novo design. Também me chateia um tanto ou quanto. Sou relativamente casmurra e avessa a (este tipo de) mudança. Parece bonitinho e funcional. Mais clean. Vamos dar-lhe o merecido benefício da dúvida. Até porque com a marca, pelo menos na era de Jobs, nenhum pormenor foi pensado ao acaso.

Em termos de funcionalidades, estou particularmente ansiosa por pôr à prova o sistema multitarefa que apregoam.

Vamos lá ver, vamos lá ver. Rápido, por favor.
Isto é mesmo conversa de chata, bolas.

Silly Season - a ultrapassar qualquer limite



Ontem não estava por casa. Creio que, mesmo que estivesse, teria sido difícil ver a entrevista em direto, já que nem a TVI, nem a Judite Sousa, são minhas escolhas habituais. Mas depois de todo o sururu nas redes sociais, decidi ir espreitar a entrevista que a 'profissional' fez a Lorenzo Carvalho, um miúdo que, pelos vistos, tem dado que falar apenas por ser rico e só eu não conhecia ainda. Neste momento, não sei o que dizer. Todo o posicionamento da entrevistadora é de uma falta de respeito, sensibilidade, postura e classe que é uma coisa abismal. Age como se tivesse  direito de fazer as perguntas que faz, no tom acusatório que usa, como quem é dona da razão e nem pensar não a ter. Não a tem, e tendo-a, te-la-ia perdido. Não só é extremamente enervante assistir, pela deselegância de todo o contexto, como apenas apetece ir lá e perguntar-lhe se, agora sim, pode voltar ao jornalismo. Foi um trabalho - podemos chamar-lhe assim? - escusado e um momento apenas triste em TV. E nem era preciso o Lorenzo lá estar. Que não conheço, não defendo e não vitimizo. A Judite fez tudo sozinha. Experimentem ouvir apenas as perguntas e notem como se fica igualmente revoltado. Quando ela decide interromper, pela milésima vez, o discurso do rapaz, para lhe perguntar se os acidentes trágicos que a família sofreu envolveram assassinatos confesso que senti alguma repulsa. Afinal, ele foi lá para falar do quê mesmo? Foi porque tem dinheiro e pronto? E não há preparação de entrevista? Vamos chamá-lo de fútil e condená-lo por ter mais do que nós. E quando decide avaliar monetariamente o relógio que o entrevistado tem no pulso? Claramente fundamental para a conversa. Ou momentos como. "Você é muito excêntrico, tem o corpo todo tatuado".

Unicamente lamentável. 
Daquelas situações em que sinto vergonha alheia. 

Quem é senhora dona Judite Sousa para dizer a alguém que tem de ajudar os pobrezinhos ou que deve sentir-se mal por fazer a vida que quer quando o país está em crise? Já chega da mesma conversa de sempre, da mentalidade pequenina. 

Eu quando ajudo é porque quero. Não porque alguém me aponta o dedo. Muito menos em televisão nacional. E isso faz-me sentir também ligeiramente desconfortável por ser portuguesa, quando foi esta a imagem de ataque que a jornalista, do canal português, passou a um miúdo que nem há um ano vive por cá.

Obs. Não pagou a Pamela Anderson da forma que a imprensa fez querer, não gasta um milhão de euros por corrida e não sonha ser piloto de Fórmula 1. Tudo informações na peça que a TVI fez para o introduzir. Magnífico. 

Pecados de feriado

Gosto de cozinhar. 
Feriado em casa é automaticamente sinónimo de mais tempo para espreitar os food blogs da moda ou para me perder entre páginas, nos livros de culinária que abundam por cá. Uma vez por outra, apetece-me recriar os pratos que nos fazem babar nos bons restaurantes. Quase sempre tradicionais, quase sempre numa linha de aperfeiçoamento: o melhor arroz de pato ou um bacalhau à brás que não seja enjoativo. Depois, sobretudo à noite, ou com o calor, quero uma salada de frango que me saiba pela vida, ou uma combinação de vegetais que convença a família (são difíceis). Uma sopa diferente - no ano passado, andava louca por um caldo de caril que só eu e o meu irmão verdadeiramente apreciámos. Na maioria das vezes, porém, limito-me a inventar. Empadão de pato, com couve-flor em vez de batata, ou um risotto de cogumelos com um creme de soja capaz de fazer qualquer um delirar. 
Hoje, todavia, quis algo simples e que enchesse as medidas do matulão de metro e noventa que se juntou ao meu almoço. Hambúrguer com batatas fritas, o que mais? Fast food, but not so fast at all. Quarenta minutos para tudo, ingredientes frescos e um mega cogumelo portobello em vez da carne (para mim, que ele tem ainda muito receio da mudança). E eis o resultado:


As batatas:
Cortar em fatias gordas, de forma grosseira, depois de bem lavadas. Deixem a casca, poupa-vos trabalho e ficam perfeitas na mesma. Sal e pimenta no fim, as usual. 

A salada:
Tomate, pepino, alface (gosto daquela meio arroxeada nas pontas - não me lembro do nome) e nectarinas. Sim, nectarinas. Doces, suculentas e capazes de um toque inesperado numa combinação normal, temperada apenas com vinagre, quase nada de azeite, orégãos e sal grosso.

O 'hambúrguer':
Comprar pão daquele que não sabe a nada, mas que tem as sementes em cima, a lembrar os macdonalds desta vida. Reservar para mais tarde.
Lavar bem o cogumelo, besuntá-lo com tomate triturado e muito manjericão. Juntar uma colher de sobremesa de mostarda e uma pitada de sal. O grelhador deve estar a aquecer ao lume, durante todo o processo. O cogumelo demora menos de cinco minutos a ficar no ponto, com algumas voltas pelo meio, para ficar bem passado e cheio de riscas dos dois lados. Vão esmagando com um garfo até estar bem fininho. 
Já ouviram falar de fazer muita coisa ao mesmo tempo? Pois bem, esta é a receita ideal para o colocarem à prova. Enquanto o cogumelo ganha sabor no molho, e já depois de estar na grelha, deixem uma frigideira ao lado, com um fio de azeite (um fio real e não os rios de azeite que se vêem nos programas de TV) e passem por lá a cebola, cortada em tirinhas finas, até ficar translúcida. Juntem-lhe duas rodelas de beringela, quase sem espessura. 
Estamos quase no fim! O cogumelo sai da grelha e entra o pão, que vai absorver os restos de tomate e ficar bem tostado, como se fosse outro. Não se esqueçam de colocar as duas fatias (de cima, e de baixo). Juntem-lhe uma fatia de queijo e sejam generosos aqui. Não é a este ponto da refeição que se vão preocupar com as calorias. Batatas fritas lá em cima, lembram-se? Usei daquele queijo que cortamos nós da bola, flamengo normal. Cortei o mais fino possível, que é sempre muito mais do que as fatias pré-cortadas. Suficiente, por isso! E não lamentavelmente triste como o outro (para este efeito, pois está claro). Ora o queijo vai para cima do pão, e é pressionado pelo garfo novamente. Lá fica até derreter, já com o cogumelo em cima. Quando o queijo começar a escorrer para o grelhador, está mais do que na hora de o passar para o prato.
Então, montar: pão, queijo, cogumelo, duas rodelas de tomate, beringela e a cebola dourada. Pão em cima, e um palito para agarrar tudo. Et voilá.

Quem precisa de ir comer fora?
E, a sério, quem precisa da carne aqui?

Quase, quase


As segundas-feiras são um mal necessário.
Se só existissem semanas a partir de terça, odiaria as terças.
O início lembra-nos que o fim acabou. O que, geralmente, tem uma conotação positiva, exeto quando o fim, é o fim da ronha e da diversão, que ficam adiados, por mais cinco dias.Esta semana é curta. Tem feriado pelo meio e, com o horário de verão da empresa, saímos mais cedo à sexta-feira. Para mim, este será um fim mais do meu agrado, e um início de férias pelo qual mal posso esperar. Vim do Algarve ontem, do meu refúgio a sul. De comboio, para enjoar, como sempre. A ver séries, até o computador ficar sem bateria, para não pensar no mal-estar. Cheguei, e aproveitei a tranquilidade da noite, enquanto esperava que ele também chegasse. Lisboa é, de fato, extraordinária, e isso torna todos os regressos melhores. Acordar cedo, porém, depois de uma noite dormida no chão por causa do calor, e sem praia a poucos metros para ir continuar a repor o sono, é tortura. Especialmente quando o interregno está para vir. O trabalho parece que cresce, e até se chega ao escritório mais cedo, porque, de repente, não há tempo para nada.
Entre fins e inícios, estou cansada e pronta para os meios.

Assim, sim


Há coisa de três anos, quando conheci a M., íamos ao ginásio que nem loucas. Bem, eu ia ao ginásio que nem louca, e arrastava-a. Foi mais ou menos na altura em que o Biggest Loser estreou na SIC Mulher. Apesar de termos andando nesta rotina por vários meses, e de eu já fazer parte da casa há mais ainda, são dos de verão de que me recordo. De sairmos do trabalho a correr para a piscina do clube, à espera de apanharmos ainda uma réstia de sol que, obviamente, já não vinha acompanhada de qualquer calor. Recordo-me, como se fosse hoje, de a ver equipar-se com umas calças largueironas e uma t-shirt que parecia querer dizer-nos ‘i don’t care’. E ficávamos, ali, nas máquinas, as duas. Eu a dizer para aumentarmos mais 5 minutos, a cada vez que atingíamos o tempo combinado, e ela a pedir-me para pararmos, que eu era maluca. Dizia que eu era a Jilian dela. E já que tinha a fama, ralhava-lhe – amigavelmente – para ter o proveito. Convenci-a a fazer uma desintoxicação alimentar comigo, durante uns dias, e ela lá foi na conversa. Ao jantar, e como os pais de ambas estavam fora, ficávamos pela casa uma da outra e comíamos os corn flakes que eu tinha ido buscar ao Celeiro, sem açúcar, sem sal e, basicamente, sem sabor. Não tive muita fome nesse verão. Olhando para trás, pergunto-me o que se passou com o meu estômago. Eu estava sempre com calor, sempre a beber água gelada, chá e com muita vontade de coisas frias. Ao almoço, comia um pepino, um tomate e pouco mais. À dentada, se fosse preciso. E bastava-me. Porque me sabiam bem saídos do frigorífico  não me obrigavam a preparar nada na noite anterior, eram práticos e gostava do sabor. Hoje, se comer um tomate e um pepino, sento-me depois, à espera do almoço. O nosso organismo é, definitivamente, um bicho de hábitos.

Na altura, a M. chegou a fazer comigo uma medição de IMC, numa daquelas maquinetas que nos dão alguns valores interessantes. Depois dos resultados, disse-mo ontem que ainda se recorda, ficou deprimida. Fomos as duas, mas os valores dela estavam acima dos meus, e muito ligeiramente acima do ideal. Eu não me lembrava, eu desvalorizei. Agora, tenho a certeza que a situação seria a inversa. Alguns meses depois de termos deixado de trabalhar juntas, reencontrei-a mais magra – não que alguma vez tivesse sido gorda. A cara era outra, com uma estrutura óssea mais traçada e uma confiança diferente. Retomámos o contacto, mais ou menos esporádico, e acabámos por nos voltar a aproximar. Durante todo esse tempo, fui acompanhando a sua evolução. Nos últimos meses, a M. – que só ia ao ginásio obrigada e ainda não lhe tinha descoberto o mesmo prazer que eu lhe atribuía – voltou a inscrever-se num. Confesso que achei que não fosse durar muito. Não poderia estar mais enganada. Vai todos os dias. Fica várias horas. Faz aquilo que a diverte – as aulas, e corre sempre que pode, sempre tentando superar a última marca (aposto). Foi de férias, mas manteve o ritmo. Longe das máquinas e da rotina, sai da praia ao fim do dia, pronta para 5 quilómetros de corrida. Vai gira e tem mais atenção à roupa que usa. Esta não é a M. que eu conheci na sua relação com o desporto. É uma M. melhorada que, não se sentindo completamente satisfeita consigo – alguma vez nos sentimos? – decidiu mudar aquilo que podia controlar. E podia controlar o sedentarismo em que tinha caído. Todos podemos. A M. come o que lhe apetece,e é de apetites doces, mas compensa num esforço que se tornou prazer, como eu sempre lhe disse que se tornaria. Nos entretantos, eu enveredei pela via oposta: mal pus os pés no ginásio nos últimos – gostava de dizer meses – anos. Por várias razões, porque a vida aconteceu. E já tentei voltar. Já me inscrevi. Já acordei cedo alguns dias e saí de sorriso na cara, porque aquela descarga de adrenalina me sabia bem e me deixava mais tranquila em relação a tudo o resto. Mas depois há o trabalho. E o trabalho que há. E o cansaço e as desculpas que, não o sendo, não vão deixar de existir a não ser que realmente queiramos.

A M. é uma inspiração para mim. E às vezes é preciso cruzar-mo-nos com estas pessoas que nos inspiram e parar para valorizar isso, para acordarmos inspirados e nos lembrarmos do que realmente importa. Não um ginásio ou uma corrida, mas nós e o que podemos controlar e mudar na nossa vida.

Chuva?

Quero férias.
Ou pelo menos ficar a dormir o dia inteiro.
Quando é que foi a última vez que eu dormi bem?
Uma noite inteira?
Não me posso esquecer dos phones, não me posso esquecer dos phones, não me posso esquecer dos phones.
Esqueci-me dos phones.
O esquentador avariou.
Vou tomar banho ao ginásio.
Não trouxe a mala do ginásio. 
Já veio o inverno e eu ainda não fui de verão?
Por favor, agosto, sê bom para mim.

Coisas que me acontem - parte mil

Quando eu começo uma conversa com um "não imaginas o que me aconteceu", quase sempre imaginam, quase sempre TODA a gente imagina o que poderá ou não ter acontecido, por vir de mim. Ao que parece, sou a única pessoa que ainda estranho as vezes em que vou pagar a gasolina com o cartão errado (não tendo o certo ou qualquer outra amostra de dinheiro), ou quando parto um frasco de compota no hipermercado, mesmo em cima do meu pé. Diz que ambas aconteceram hoje, uma de manhã, outra ao final do dia. Dom namorado salvou a primeira, mesmo à distância - tudo agora é possível com a Internet, desde que alguém me atenda o telefone às oito da manhã. Na segunda ocasião, fui para ao gabinete de primeiros socorros do Jumbo. Com o pé em sangue. A palma do pé em sangue. As sandálias a escorregar de tanto sangue. E deixando todo o chão imundo com sangue. E olhem que cortar-me, ir contra algo e arranjar feridas é o meu prato do dia. Para estar a dizer que era sangue em quantidades que faziam impressão, é porque era mesmo. O corte - vá - foi jeitoso. Não incomoda, mas fez ali uma festa. E compota, que era suposto, nem um bocadinho. Caiu-me uma parte do vidro do início do frasco, que não apanhava ainda o doce. Aterrou em cima do meu polegar e fez mossa de uma ponta a outra. Qual seria a probabilidade? Zero, respondo eu. Cem, todos os que me rodeia.

Verão no supermercado

Uma pessoa nem se dá conta. O dia amanhece igual aos outros (pelo menos, às sete da manhã). A noite foi na mesma de edredom. As roupas são as que poderiam ter sido no dia anterior. O ar condicionado ainda não vem ligado. A empresa é fresca, sem qualquer necessidade de ventoinhas. Mas depois sai-se, à hora de almoço, em plena magnitude solar, e damos por nós no supermercado a trazer gelados, beterrabas, alfaces e meloas, porque tudo o resto até parece que já nem sabe. E ao contrário dos outros dias, em que a comida fica a aguardar o fim do dia no carro, temos de trazer tudo para dentro e guardar no frigorífico, porque damos por nós, e só trouxemos frescos.

Coisas que eu não compreendo

Marcas (que eu até gosto bastante) que se dão ao trabalho de enviar e-mails que não dizem absolutamente nada. Não são coisas que não nos interessam, são coisas que, por virem escritas de forma absolutamente inútil, não sabemos sequer se nos podem interessar. Mais ou menos assim:

"Estimado sócio (a),
 Nesta altura de Verão, poderá finalmente incentivar a sua companhia a treinar no nosso clube.
 Temos uma excelente campanha de Verão e apenas algumas vagas disponíveis.
 Aproveite!"

Apetece perguntar: e que campanha é essa, senhores? E pronto, perguntei.

Pai, mãe, porque me fizeram sem gostar de café?

Decididamente, não sou a pessoa com mais sorte do mundo. 
Ontem lá decidi que iria dormir a noite toda, custasse o que custasse. É certo que cheguei a casa, passava  já da hora da Cinderela. Mas portei-me bem e fui direitinha para o sofá. Pensei "para quê perder tempo a ir até ao quarto? Prioridade ao sono!". E por ali fiquei. Até às 4 da manhã, pois está claro, quando fui acordada, não por insónias, mas por um bando de melgas raivosas que me atacavam como nunca havia sido. E quando eu me refiro a ataque, quero dizer que fui picada em dois indicadores, um mindinho, no peito de um pé, junto ao tornozelo no outro, num cotovelo e num pulso, várias vezes nas pernas e ao fim das costas. Aguentei uma hora disto, até ter decidido mudar de divisão. Na cama, a saga continuou. Não percebi bem se as melgas me seguiram, ou se a comichão agudizou. Seja como for, até às seis e meia da manhã foi uma festa. Até que decidi, por fim, acender as luzes, voltar a arrastar-me e procurar um creme de menta. Besuntei-me toda, à falta de melhor, e depois cobri todos os pedaços de mim que ainda respiravam: robe por cima do pijama para tapar os braços, e meias por cima das calças, para nem haver ideias. Lá dormi quarenta minutos, até o despertador tocar. Desliguei-o e, heresia das heresias, voltei a fechar os olhos. Acordei meia hora depois, completamente aflita, a sonhar que tinha ido tomar banho e que tinha decidido fazer da banheira cama...até à hora do jantar! 

Não quero ser alarmista

Mas é a segunda noite consecutiva que acordo às quatro da manhã para navegar na Internet durante cerca de uma hora, até o computador ficar sem bateria e eu voltar finalmente a dormir.

Entretanto acordei às seis e meia, quarenta minutos depois já estava a fazer o reconhecimento do caminho para o evento de trabalho que terei hoje ao final da manhã (certificando-me que na hora não me perco) e cheguei à empresa nem vinte minutos depois. Claro que o resultado foi bater com o nariz da porta. Porque não sou propriamente a pessoa com mais jeito do mundo para fechaduras e ferrugem, pelo que achei melhor esperar no carro, tranquilamente, até alguém aparecer.

Adenda: São muitas, muitas mais do que me pareceram de manhã. Só na mão direita, tenho cinco picadas. Que mundo injusto.

Factos em julho

Este blogue faz hoje 4 anos. Esta madrugada acordei às 4 da manhã. 
Lembrei-me de que a Fnac estava em saldos e fiquei a navegar no site durante uma hora, para depois acordar com o despertador, mais tarde, completamente ensonada. 
Vou para o algarve este fim-de-semana. Estão 31 graus antes, 32 depois, mas no sábado chove e a temperatura cai para os 23. 
Fixe.

Marés Vivas de sofá

Lembro-me perfeitamente da forma descontraída como me fazia de irresponsável. Estava intimamente ligada, como não poderia deixar de ser, à ingenuidade própria da idade, que sempre me fez crer ser uma recém-adulta espectacular, daquelas com pinta, que vivia para o momento e que respirava aventura. Não raras vezes cedi a impulsos parvos de que não me arrependo nem um pouco. Porque, não se constituindo como os melhores momentos da minha vida, são daqueles por que, em alturas de nostalgia, me conseguem fazer sentir muita saudade. Daqueles em que, com amigas, olhei para um fim de semana como uma tela em branco, e ao mesmo tempo repleta de possibilidades. De quando nos perguntávamos para onde haveríamos de ir sair, até que alguém - eu -  respondesse algo aparentemente estapafúrdio como "no Algarve há uns bares fixes", e todas nós trocássemos olhares e risinhos nervosos, que nada mais diziam se não um "bora lá". E íamos. Ou de quando se decidia, em madrugadas quentes já para lá da ponte, que o pequeno-almoço deveria ser tomado no Porto. Porque mesmo quando eu não ia, e nesta última eu não fui, as aventuras eram sempre um bocadinho minhas também, que as acompanhava por mensagens, toda a noite, por cima da almofada. Ou de quando nos escapávamos para a piscina, lá bem no sul, e tínhamos a lata de atender os telefonemas aos pais, fingindo-nos 200 quilómetros mais perto. Dos acampamentos em pleno inverno, que terminavam rumo a uma casa, pelo meio de uma serra e com muitas horas de caminho, para finalmente percebermos que não tínhamos a chave connosco. Das amizades inesperadas que se criam em dias de festa, quando invadíamos a casa de, por exemplo, um ex-namorado e seus colegas de apartamento, de que nunca tínhamos ouvido falar, mas que nos dançavam em cima da mesa da sala, quando já dormíamos, com a alegria de quem encontrou o álcool nessa noite. O dinheiro arranjava-se sempre. E a disponibilidade também. Hoje é tudo mais complicado, tudo mais pensado e, no fim, tudo menos feito.

Hoje, quando ligo para a minha principal companheira de touradas e digo "vamos até lá acima, vemos os concertos e voltamos na mesma noite", não consigo não pensar antes "espero que ela não queira, que assim não sou eu a não querer". Porque entretanto já fiz as contas ao ordenado, e às semanas que faltam até voltar a receber. A quanto se vai gastar em gasolina e no cansaço que vou sentir. Em como vou querer dormir e não voltar de madrugada. Ou na forma estourada como iria lá chegar, depois de 3 dias da semana de cama, com uma valente amigdalite, e dois dias seguidos a recuperar trabalho. Hoje, penso logo no que vou jantar, se levo marmita, se chego a horas, se não é melhor compensar ao almoço e pedir no trabalho para deixar a sexta-feira mais cedo. Hoje, lembro-me antes que tenho que ir a casa, e trocar de roupa - e levo outra? e casaco? e o calçado? E hoje enrolo muito mais, é bem verdade. Mas, apesar de tudo, não deixo de fazer. 

Não me entendam mal, há coisas de que nunca me irei esquecer, e que me fazem sorrir só de lembrar. Não quero, porém, voltar atrás. Este ano, o Marés Vivas foi no sofá. Vi os meus concertos preferidos, através da transmissão pelo Facebook que fizeram, e fui dormir quando quis, sem quaisquer preocupações. Para a próxima, estou lá ao vivo, é certo, que em casa nunca é a mesma coisa, e não deixei de querer respirar os ares do momento. Mas não é preciso fugir a meio da noite, ou voltar sem dormir, de forma violenta. Para a próxima, que já sei, porque todos os anos quero ir, e todos os anos é a mesma história, tiro férias nesta altura e, se for preciso, até aproveito mais do que antes aproveitava. Para a próxima, posso ignorar uma partida repentina, e sem avisar ninguém, para a outra ponta do país. Porque, em compensação, consigo ir a Londres, Madrid, Barcelona ou Oviedo, como fiz em 2012. As borboletas no estômago já não são pelos às escondidas, mas a excitação por novas quebras à rotina mantêm-se. E elas podem ser pensadas sim, e não há mal nenhum nisso, pelo contrário. Mas nem sempre é possível. Nem sempre é possível para mim. Porque, a verdade, é que ainda há resquícios no meu organismo das decisões de última hora. E está tudo bem na mesma. Já não vou como se fosse louca, mas fico dessa forma: desmarco nos minutos finais e fico a gozar os meus fins de tarde no Chiado ou os jantares para a família, namorado, tias, primas e o que mais vier. E não me importo, nem um bocadinho.

Eu sei que estive fora tempo para caraças...

...Mas 199 seguidores? A sério? Da última vez que vi este número ainda o meu cabelo estava por baixo das orelhas - agora está a mais de meio das costas. Não há por aí uma alma caridosa pronta para criar um perfil falso e me alimentar o ego?

"Eu, os saldos e as minhas amígdalas" ou, se quiserem, chamem-lhe apenas "A sorte de Marta"


Há coisa de dois/ três anos torci o pé na altura dos saldos. Lembro-me, perfeitamente, porque no dia em que arrancaram, no dia em que eu tinha planeado cumprir o meu roteiro de Zaras por Lisboa inteira, já eu estava de atestado em casa, com pé para o ar e a queixar-me da vida. Os meus pais estavam fora, por isso obriguei o namorado a vir aturar-me. E foi isto.

Há coisa de duas/ três semanas, engoli uma espinha. Era dia de trabalho, e tudo aconteceu num almoço que correu mal. Desde aí que não como peixe. Acabei no hospital, frente a frente com uma pinça que tinha o tamanho de todo o meu pescoço (juro que não há exageros aqui), e cerca de seis horas depois de a ter engolido, de muito pão e água pela goela abaixo, saiu a maldita e ficou a recomendação de muito bochecho com elixir, nos dias seguintes. A espinha estava atravessada na amígdala esquerda e não haveria qualquer forma de ter saído por si só. Graças à L., que não desistiu de perseguir o caminho pelo hospital correto - a Saúde 24 atirou-nos para o mais perto que, por acaso, não tinha serviço de otorrino e, portanto, espinha a sair só com endoscopia - saí aos pulos da sala com a médica que vestia bata de cirurgiã, e voltei a sentir o que há horas não sentia: uma garganta limpa. Por diversas vezes, nessa tarde, tentei dissuadi-la. Por vezes, soltava uns "acho que já desceu, podemos voltar para trás" ou mesmo um "deixa lá, eu depois vou", já depois de horas e horas de uma tarde completamente perdida. Pobre L., que quando se ofereceu para me acompanhar, mal sabia o que a poderia esperar! Perde-mo-nos, pois está claro. Porque essa é a minha imagem de marca. Ela, porém, nunca desistiu nem deu grande azo ao meu queixume.

(Sim, isto era o que estava na sala de espera. Não perguntem)

Há coisas de dois/ três dias comecei a espirrar muito. Pode perfeitamente ter a ver com o fato de ter ido correr às dez da noite de quarta passada, quando mudou a temperatura. A intenção era boa, e tinha prometido à prima. Mas levei uns ténis que já não calçava há muito. Deixaram-me os pés dormentes só de conduzir e fizeram-me uma bolha sem sequer uma volta completa ao parque ter conseguido dar. Não corri porcaria nenhuma. Chateei-me com a minha irmã nessa noite e ainda me deitei de janela aberta, porque estava demasiado irritada e cansada para fazer outra coisa que não atirar-me para a cama e enfiar a cabeça na almofada. Cheguei ao trabalho, no dia seguinte, e entrei na minha sala, na qual estão ligadas tantas ventoinhas quanto as necessárias para simular uma tempestade de vento num cenário de Hollywood (não vale diabolizarem os meus colegas, sou eu que tenho sangue de réptil - palavras do pai - e nunca, mas nunca, tenho tanto calor quanto as pessoas normais). Passei o tempo a espirrar e a sentir os olhos arder. Piorou na sexta. No sábado os sintomas fizeram-se acompanhar de uma ligeira impressão na garganta. No domingo não falava. À noite, já nem comia. Não sem me caírem lágrimas com as dores. Hoje fui ao médico em vez de ir trabalhar. E hoje, adivinhem? Começaram os saldos. 

Há coisa de duas/ três horas, perdi-me a revisitar o meu Instagram. Acho sempre que não o alimento e, no entanto, está bem mais recheado do que eu poderia ter dito. Descobri que no ano passado, dois a três dias depois da FIA (soa-vos familiar?), estava doente. Amígdalas, de novo. E, espantem-se, no fatídico 15 de julho, mesmo sendo sábado, fiquei por casa a rogar pragas à garganta.

Posso concluir que o meu organismo não me quer a comprar roupa? 
E, já agora, como SEMPRE disse aos meus pais, nem a comer peixe?

Como vêem, estive ocupada. 

Da meia-noite

Quase todo o nosso sofrimento vem de coisas que idealizámos. Uma reação do namorado, do chefe, do pai ou do periquito. O recuperar de uma antiga paixão. Um reconhecimento, uma prova de amizade, de amor. Um novo trabalho, um novo hobbie, uma nova casa ou uma vida diferente. Porque a expectativa já é inimiga por si só. Mas a expectativa que permite compor logo uma história na cabeça, daquelas que nos parecem tão óbvias para todos os envolvidos que não têm como não acontecer, é lixada. E fica aqui a ganhar raízes até que algo ou alguém as corte abruptamente, depois de tudo o que já estava pensado e quase, quase certo no nosso pensamento. E isto é válido para aquela amiga que não larga o passado porque idealizou um futuro com um desfecho diferente (mesmo já sem expectativas que, a determinado momento vão, mas ainda não conseguem levar tudo o resto). Mas também é válido para todos nós e para as coisas mais pequeninas do nosso dia a dia, para os pequenos sofrimentos e derrotas temporários. Não matam, mas moem. E é só porque deixamos.
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