O post do adeus

É isso. Não há muito a dizer. Poderia fazer deste post uma ode a todos os bons anos que passámos juntos, Mas o melhor registo que disso existe é o arquivo que por aqui se encontra e que, confesso, tenho algum receio de reler. Às vezes perco-me em textos realmente antigos e passo cada linha a questionar-me sobre quem os poderá ter escrito: eu ou a minha versão sonâmbula. O post-it amarelo foi um bom escape durante alguns anos. Foi um espaço muito desconexo, que nunca encontrou uma identidade certa. Sobretudo porque me acompanhou durante uma fase da minha vida em que trabalhei em agências de comunicação, e a escrita sobre marcas concorrentes às que eu trabalhava não me parecia correcta, mesmo que numa esfera pessoal. Por isso, houve sempre uma parte que ficou para trás. Uma vertente minha que adora tagarelar sobre beleza e maquilhagem, por exemplo. 

É bem verdade que poderia ter revitalizado esta morada. A determinado ponto, todos fazemos obras em casa. Mas há alturas em que se prefere, simplesmente, começar de novo. Agarrar no terreno e já construir tudo à nossa maneira. E eu estava a sentir essa necessidade. O Funky Flirt é um endereço que nasce de forma muito mais descontraída, com outras ambições e vertentes. Que conjuga todo o lado de diário com outras personalidades, mais próprias de uma revista online. Como está na moda dizer-se, hoje em dia, é uma plataforma de lifestyle. O que, trocado por miúdos, quer dizer que 
é um blogue como todos os outros, com o meu cunho e, desta vez, sem restrições.

Ainda não está como quero. Mas quando é que terminamos, realmente, de mobilar e decorar o sítio onde moramos?

Sejam bem-vindos. A porta está aberta, aqui


Uma história por dia

A de ontem chegou em filme. E que filme! A Hilary Swank é só uma das melhores atrizes da sua geração. Gosto dela desde sempre, mas só me tornei verdadeiramente fã com Million Dollar Baby. E se tinha achado boa a sua interpretação aí, You're not you elevou todos os padrões e expectativas. Não porque faz de doente. Não porque é a coitadinha. Mas porque, caramba, é extraordinária nisso tudo. Fazem-me muita comichão os óscares que só são atribuídos a papéis de doença terminal, álcool ou drogas. Todavia, admito que assim o seja pelo esforço de despersonalização que exigem a quem os executa. Seja como for, durante todo o tempo do filme acreditei piamente que a Hilary sofria de esclerose lateral amiotrófica. E foi doloroso. Pela progressão rápida da doença - que em pouco mais de um ano tudo mudou na sua vida - e pela manifestação avassaladora da mesma. É bom termos uma melhor noção do que é mau. Especialmente quando vem num formato bom.


Verdades de La Palice

São a típica boyband. Sem desprimor. Há dias em que as músicas de letra fácil e melodia pop, que fica na cabeça, são tudo o que é preciso para um sorriso nos lábios. Existem poucas coisas melhores do que reconhecermos uma letra de que gostamos na rádio, e conseguir cantá-la até ao fim, de vidros abertos e sol à espreita. 

Não são ídolos. Não os meus. Nem sequer são daqueles que consiga ouvir ininterruptamente ou com faixas com me façam sentir. Chorar, gargalhar, vibrar. As palavras nem sempre fazem sentido e têm refrões tão banais que ao terceiro repeat enjoam.

E no entanto, são tão bons. 

Porque mesmo com as partes em que a letra é mais fraca, mesmo quando o ritmo é dos óbvios e quando as vozes não estão como se exige a quem se diz cantor, os 3 giros que formam os D.A.M.A - pertencer a uma banda classifica-os automaticamente assim -  estão no meu carro, no meu quarto e na minha cabeça de forma tão natural que, na maioria das vezes, já não percebo. 

E hoje estreou música nova. Daquelas que encaixam perfeitamente nos refrões a que torço o nariz. Sem grande emoção durante todo o tempo. Mas depois, irra que há sempre um mas...! Depois surge um verso que diz "Vá lá não fiques convencida, só porque és mais gira do que querida". Surge esse verso que pode não querer dizer nada para o comum dos mortais, mas que é verdade universalmente instituída na minha geração. Que se é uma coisa ou outra, pelo menos para o sexo oposto e numa primeira apresentação. "Tenho um amigo muito querido para ti" é introdução para fazer fugir antes do encontro. E é com esta que me apanham. Com este fenómeno da identificação que, quase sempre, ocorre com frases feitas e tão genéricas que todos absorvemos. 

Há música de amor em que não tenhamos já encontrado algo de nós? E que músicas verdadeiramente existem que não abordem a relação entre casal? Tudo parece sempre escrito para o nosso caso, pelo menos quando é bem feito. Neste caso não. Neste caso, há mais de 5 versos seguidos que apenas dizem "não dá, não dá, não dá" e isso é só irritante. Não encontro um espelho, nem um elo. E logo a seguir rio-me sozinha. Logo a seguir, quando estou prestes a parar o vídeo. Rio-me sozinha que nem uma perdida, quando chegam as palavras que me divertem. 

Assim funciona.
Assim, estão de novo de parabéns.

"

Aquelas peças que nunca vamos usar até usarmos





Já as vi de todas as cores e feitios, com saltos altos e coordenados cor-de-rosa de princesa, ou ténis-bota descontraídos com uma camisa de ganga. Há-as conjugadas com sweatshirts ou blusões masculinos; curtinhas, pelo joelho ou a chegar aos pés. Gosto de todas. Quero todas. Para dançar no hall de casa, ou para me fingir estrangeira pelas ruas da Baixa de Lisboa. Para usar com crop tops de manga comprida ou sem costas.Tanto faz. 

Só preciso de saber: onde raio arranjo uma? 

Sexta-feira

Sabem quando o dia ainda nem sequer começou e já estamos cansados? Quando sonhamos com uma manta, um sofá e uma caneca gigante de chá e é tudo o que queremos para o nosso fim de noite? É mais ou menos nesse estado que estou - há uma semana. Mas é dezembro e há jantares a toda a hora, com os amigos de sempre, os habituais e os que só revemos nesta altura. E com isto não me lembro de chegar a casa sem ser com todos a dormir, ainda com pedalada mas sem ninguém para me responder. 

Depois, há também um apartamento novo pelo meio, que eu visito todos os dias religiosamente para verificar como se encontra. Como se tivesse vida própria e pudesse fazer asneira durante a madrugada. Falhei a quarta-feira e fiquei com saudades. Há uma mudança iminente, à espera do meu ok para acontecer, e tantos, tantos planos por terminar. E há muita curiosidade, de todos os que ainda não conhecem e querem conhecer. Por isso mesmo, sem mesa de sala ou cadeiras, os jantares vão-se fazendo entre quatro paredes-novidade, com gargalhadas em banda sonora e regados a vinho e boa disposição. Que é o que me volta a esperar hoje. E eu sou uma ingrata de meia tigela por reclamar de falta de tempo para fazer nada, quando tudo o que vem, e tudo o que acontece, é tão bom.

Black Friday

Se há coisa que eu gosto é de comprar online. Roupa, móveis, maquilhagem, tachos. O que for. É um conforto tremendo. E sim, claro que muito me agrada tocar nas coisas, sentir os tecidos e os materiais, experimentar, visualizar e tudo mais. Mas são experiências completamente diferentes que não podem ser comparadas e – na minha ótica – nem sequer substitutas uma da outra. Hoje, por exemplo, queria muito aproveitar os descontos (mínimos) do dia para comprar um casaco que já experimentei centenas de vezes, escolher uma mala e deitar olho aos ténis que tenho andado a namorar. Inversamente, vontade de me perder no caos das lojas estava pelas horas da morte. Sobretudo quando há um fim de semana cheio de planos pela frente. Há dias em que a tenho. Há dias em que preciso do barulho, da música alta, das luzes estranhas e de toda a confusão. Outros em que me apetece sentar no sofá, descalça, e navegar pelos sites num momento de puro lazer.

Há riscos. Depois não se gosta, ou não fica bem (no corpo, na cozinha ou na sala). Não é como se esperava, afinal entretanto vimos algo melhor. Por isso mesmo, compro quando conheço as políticas de devolução e/ou troca e faço delas o uso que eu quiser, e ao qual tenho direito. Se me chega algo a casa que não está bem, ou por defeito, ou para mim, resolvo num cómodo prazo (habitual) de 30 dias. Se tudo estiver do meu agrado, é maravilhoso poder – sobretudo no que toca a roupas – experimentá-las logo no nosso quarto, com os nossos espelhos e todos os conjuntos que realmente usamos.


Também há momentos em que compro onde nunca comprei e não faço bem ideia de como as coisas podem funcionar face a situações menos positivas. Nesses momentos arrisco tudo, em pequenas quantidades financeiras, e seja o que a loja – e os correios – quiserem! Creio ser precisamente pela descontração que nunca me desiludi. Pelo contrário. 

Em modo inspirado

Há dias em que não sei porque faço o que faço. Se fui eu que escolhi esta profissão ou se, por circunstância e oportunidade, foi ela que me escolheu. Há muitos dias em que me sinto embalada por uma vida comum, estável e que se faz com um despertar todas as manhãs, à mesma hora. E depois há outros, em que todo este mundo da comunicação me fascina tal e qual criança em noite de Natal. Em que chego a casa com o bichinho no estômago e as ideias na cabeça. Em que me deixo entusiasmar por completo por uma coisa que já vi e ouvi dezenas e dezenas de vezes. Dias em que penso: "Eu nunca poderia fazer outra coisa que não isto". 

Eu nunca poderia conceber uma vida sem escrita. Sem palavras e sons. Sem a pressão, tantas vezes ingrata e tão pouco reconhecida, da produção de conteúdos completamente díspares nos mesmos 60 minutos. Sem o esforço mental de conseguir mudar rapidamente para outro assunto, manter a criatividade e cumprir o objetivo do texto. Nunca poderia conceber uma vida na qual não lidasse, de forma tão próxima, com outras pessoas. Com o público da minha empresa ou projeto. Com aqueles singulares que tantas vezes fazem mais barulho do que qualquer multidão; aqueles que estão do outro lado e que são quem eu realmente quero ouvir.

Ter o privilégio de fazer tudo isto num momento da história em que as formas de comunicação estão em mudança permanente, e em que o paradigma digital chegou de assalto para derrubar as outras plataformas, é incrível. Nasci com computadores pessoais ainda em fase embrionária. Quase três décadas depois, escrevo mais rápido num teclado do que com uma caneta. Cresci a redigir blogues, abandonando cedo os diários. A ver o planeta através da Internet. A aprender, enquanto utilizador final, como funcionavam as primeiras redes sociais. Hoje, é delas que me sirvo para passar as informações que quero. Mas há ainda tanto por descobrir, há ainda tanto para testar, compreender e aprimorar que as possibilidades são infinitas. É que, mesmo num ecrã de computador, é o comportamento humano que estudamos. E eu não poderia ser mais grata por o poder fazer no meu dia-a-dia e chamar-lhe de "trabalho". 

Difícil, difícil...


Estamos a 50 euros e a uma permissão para destruir a parede da sala de alugar um apartamento. Porque é que nesta dança das imobiliárias nada é tão simples assim? Na dúvida, trai-se o agente que já conhecemos há um ano e optamos por aquele que nos consegue o preço que queríamos? Não estava preparada para a guerra quando fui chamada ao espetáculo do arrendamento. E ainda nem passei para o round dos programas do Estado. 

Isto está bonito.

A saga das casas



Há sensivelmente um ano descobri a casa na qual queria viver. Por um bom tempo, pelo menos. Tinha arrumação para mim e mais dez. Uma casa de banho que parecia um salão de baile e uma sala ampla, com uma kitchenette completa e de ar moderno. Adorei-a. Foi a única casa (penso) que fiz questão de mostrar aos meus pais. E esse foi meio caminho andado para não ficar com ela. Enquanto eu e a minha mãe babámos para os mil armários embutidos nas paredes a cada corredor, o pai e o namorado viam a ausência de janelas (sim, eu sei que parece grave, mas vocês não sabem como era maravilhoso o apartamento). 

Setembro de 2014 e eis que o mesmo senhor, com a mesma disposição para a conversa de há 12 meses atrás, e perfeitamente lembrado da minha família, me mostra um novo T2. Não fiquei apaixonada, nem nada que se parecesse, mas muito inclinada para o aluguer. Porque o sítio é o ideal. Com estacionamento em abundância e o jardim mais bonito de Lisboa no fim da rua. E a casa beneficia de uma luz exuberante em todas as divisões, uma pintura de cara tão limpa que faz o velho parecer novo e um café mesmo em baixo, daqueles com cadeiras sobre o passeio e euromilhões em cima das mesas. 

Imagino-me a viver lá. Imagino mesmo. Mas depois pergunto-me se as paredes entre as quais quero ir dormir não deveriam arrebatar-me como se diz que os vestidos de noiva fazem. Especialmente porque já o senti. Chata da casa que não tinha janelas.

A minha máquina desapareceu

Passei quase dois anos a querer comprar uma máquina fotográfica. Quem me conhece, sabe que é uma das minhas obsessões. Namoro-as até ter a certeza que é para casar. Mas, quase sempre, as aquisições são na realidade fruto de um amor à primeira vista. Desconfio sempre. Espero o preço baixar. Rondo, sondo e aguardo até ter mesmo, mesmo a certeza. A mesma que tinha desde que lhe pus os olhos em cima. Aguardo sempre, embora saiba bem o que quero, assim que vejo. 

Depois de quase dois anos a querer esta máquina específica (com outras a entrar pelo meio - são todas diferentes, fazem todas fotos diferentes, não me venham com histórias), comprei-a. Dei-lhe todo o meu amor, carinho e dedicação. Graças a ela, criei o blogue de culinária que há tanto queria. E tirei fotos como sempre quis. E fomos felizes, como eu sempre soube que íamos ser. Era uma relação perfeita, em plena harmonia, mesmo sem qualquer manual. Era uma relação que hoje terminou, sem que eu ainda tenha aceite que é o fim.

Os últimos dias foram de evento. Passei o sábado e domingo com ela ao ombro, para lá e para cá, no escritório improvisado lá na arrecadação do MEO Arena. Deixei-a à solta, sem bolsa, e aos saltos no carro. Ontem, larguei-a em cima de uma pilha de roupa no quarto, sem qualquer tipo de equilíbrio. A antecipar a sua queda a qualquer momento. Reforcei o espaço com uma almofada para a amparar, e fui dormir tranquila. Hoje, saí com ela para o trabalho. Achava que sim. O pai diz que viu, acha o mesmo. Cheguei, porém, ao trabalho sem máquina. Dei logo pela falta. Achei estar maluca e ter deixado em casa. Não está em casa, nem no trabalho, nem no carro.

A modos que só me apetece ter 4 anos outra vez para poder chorar baba e ranho por um objeto sem qualquer tipo de censura.

Dia de reis

Tenho vertigens. Desde de que me lembro. Pelo menos, chamo-lhes assim, à falta de melhor. O que eu tenho, na realidade, é um aperto no peito e um frio no estômago, sobretudo junto aos corrimões de varandas. Nem precisam de ser muito altas, desde que não tenham nada por baixo. Mas essa nem é a parte má. O que me faz, quase sempre, ter tendência para me curvar - houve fases em que chegava mesmo a agachar-me - é a visão imediata que eu tenho das mãos pousadas sobre o corrimão enquanto o chão se desfaz em ruínas, mesmo por baixo dos meus pés. Ou os cabos dos teleféricos que se soltam. Ou das rodas das diversões que descarrilam nas voltas mais altas. E sinto como se tudo isso estivesse realmente a acontecer, de tal forma que chego a ouvir sons. É por isso que, não acreditando, sei que se acreditasse teria a certeza de ter morrido, numa outra vida, num sítio à beirinha, que me atirou para o vazio. É uma trauma sem motivo, eu bem sei. Mas é a minha mania, a minha esquisitice e sempre que a puder evitar, evito, que aquela história de enfrentar os medos só fica bem nos livros.

Aqui há uns anos, na Eurodisney, e já farta de ficar nas filas de espera enquanto as duas amigas que estavam comigo se divertiam nas montanhas russas mais assustadoras, deixei-me levar pela conversa delas. Que quando experimentasse me passava, que ia gostar, que era espetacular. E fui. Para a tartaruga do Nemo. Elas ficaram na parte da frente da carapaça e eu comecei a viagem nos carris, já de costas voltadas ao divertimento. Foi horrível. Quando começou a descer, numa gruta escura, eu desci de virada para trás o tempo todo, sem ninguém ao lado e a achar que ia cair, a qualquer momento. Aguentei lá dentro estoicamente - com alguns gritos pelo meio, é verdade, mas a fazer-me de forte. Gritos que não eram de loucura ou de adrenalina, mas de puro pânico. Disse várias vezes coisas como "não morras, não morras, não morras" ou "não quero morrer". Saí e desatei a chorar, feita bebé. Riam-se que eu permito, são figuras muito, muito tristes. Com isto julguei, contudo, ter encerrado o capitulo da minha vida em que insistia numa coisa que não resulta...

...até ter batido com o carro, na véspera de Natal, depois de um despiste, sozinha numa estrada, sem que nada o fizesse prever. Conduzi na altura, para o tirar do meio da estrada, antes que viesse um outro e a história acabasse mal. Conduzi dois dias depois, na maior. Conduzi à noite, para levar os irmãos a dar uma volta. E ficou por ai, porque as férias vieram e eu pensei que, com elas, viesse o esquecimento. Voltou, porém, a chover, e na noite anterior ao regresso ao trabalho eu não consegui dormir. Ouvi a tempestade durante toda a madrugada, desejando que parasse no momento em que o sol nascesse. Não parou, mas abrandou e, mais uma vez, conduzi. A sentir os pequenos toques no travão na minha garganta, no peito e no estômago, como se estivesse à beira de um precipício. E, tal como nesses casos, o pior não é essa parte. Nem sequer aquela em que imagino que todas as zonas mais escuras da estrada têm água, mesmo quando estão secas. Nem quando em todas as curvas sinto o carro fugir, quando ele nem se move um milímetro da sua rota. O pior, mais uma vez, são todos os flashes que tenho, que começaram com memórias e evoluíram para cenários que eu nunca vivi. Vejo acidentes o tempo todo. Com detalhe. Com cheiro. Sem que nada me distraia. Sem que consiga pensar noutra coisa, ouvir rádio ou cantar.

A diferença, desta vez, é que com a mesma força de todos esses momentos vem uma vontade inexplicável de reproduzir a cena do crime. De saber que, se alguma entidade me pudesse garantir que não me aleijasse e que o carro permanecesse intocável, já tinha enveredado pelo caminho daquele dia, pelo qual deixei de passar. De saber que, se fosse possível, gostaria que tudo acontecesse exatamente como aconteceu, mas que desta vez eu conseguisse controlar o carro. Porque há um sentimento de fracasso, de querer refazer as coisas e de revisão, constante, nestes dias em que volta a chover. E eu nunca revejo os momentos em que me sinto cair de uma varanda, nem tenho vontade de os enfrentar. Não que tenha particular alegria em conduzir nestes dias, não tenho. Mas vou conduzindo, porque este não é um medo a ser enfrentado para dizer que sim. Este é um medo que já foi um prazer. E dessas coisas sente-se falta.

Para já, a condução é ainda muito consciente. Demasiado para ser saudável. Mas é também tranquila, segura e com muita, muita paciência. Um dia vão passar. Estas vertigens de andar de carro. E enquanto não passam, uma coisa que ajuda bastante é escrever. Não agora, no depois, mas no momento, quando dito este texto enquanto avanço na viagem.

Ao primeiro dia de maio...

É o sol que me acorda. O despertador toca, é certo. Não sabe que é feriado, está programado para todos os dias úteis. Que é isso de um dia útil? Já por mim passaram dezenas de segundas-feiras sem cumprir esse requisito. Saio da cama como se fosse domingo. Daqueles que eu tinha quando era pequena, com os desenhos animados a passar na TV. Está a dar o Bambi 2. Tentei acompanhar e apercebi-me que o primeiro não foi um filme que me marcou. À parte daqueles que eu considero ser os bonecos mais giros da Disney (desenhos bem conseguidos), é dos poucos filmes cujas falas não memorizei, cujas cenas não sei de cor. Vi duas vezes na vida, se tanto. Vezes dez passaram todos os outros. 

Demorei-me a comer Chocapic. Até entornar leite no cobertor e encerrar o pequeno-almoço da preguiça. Fiquei pelo sofá, mais um pouco, a ver as séries que tinha deixado pendentes. Não vai ser um dia de descanso. Sem preocupações ou trabalho para deixar fechado. Mas eu não consigo deixar de sorrir na mesma. Talvez seja realmente do sol que me entra pela janela. Talvez seja do mês que começou. Da contagem decrescente para Londres, mais uma vez. Do fim-de-semana que já planeei. Das coisas que queria comprar há algum tempo, e que agora fazem sentido. Do meu carro que voltou e do medo que, ao contrário do que eu antecipava, desapareceu. De alguém do passado que quer regressar. Talvez seja do conjunto de todas essas coisas, não sei. Aquilo de que tenho a certeza, é que é um sorriso de esperança, daqueles que vem cheio de planos e traz consigo a vontade inexplicável de uma limpeza de primavera para um recomeço total. 

Até me apetece arrumar o quarto. 

Muda de vida se tu não vives satisfeito*

Quanto mais coisas faço, mais coisas saparecem para fazer. Renovar a imagem deste blog foi também uma oportunidade para reler alguns dos últimos posts e perceber que, claramente, sou chata. Simples assim. Os últimos meses de 2013 foram dedicados a reclamações exaustivas do tempo que teimava em escassear. Em 2014, nem cá pus os pés. É coisa de filha aluada, não visitar a casa. Até aqui tudo bem. Mas regressar para fazer queixinhas é chato. E, no entanto, cá estou eu de novo. 

Quando me perguntam se sei o que vou fazer, não posso responder que sim. Sei que é o que quero fazer, e isso é suficiente. Precisava de mudar. Precisava de querer escrever sobre coisas menos chatas. De vir desabafar com o word sobre todos os projetos que não passaram disso. Não estava à procura de um emprego novo. Queria uma vida nova, e o desafio veio de arrasto, como não poderia deixar de ser. Ainda não tive tempo para ficar nervosa. Não vou ter como pensar muito nisso. Acontece tudo esta semana: amanhã, com um fecho para o qual sei que posso contar com a ajuda dos colegas; sexta-feira, num início que acontece apenas pelos meus pés, e de cabeça erguida. 

Pelo meio, o desejo é o de dormir toda a quinta-feira. Ficar de pijama, sem qualquer tipo de compromisso, e não sair da cama se não em casos de absoluta necessidade. Ver séries o dia inteiro. Por mim, começo quinta a acompanhar - finalmente - a Guerra dos Tronos, e só largo quando o dia (ou os episódios) terminarem. Escrevo e sinto-me a salivar, qual Silvestre para Tweety. Parece absolutamente inatingível e, no entanto, com toda a sua simplicidade, é tudo o que eu quero. 

Já por agora, a promessa é outra: a de que este será, durante um bom tempo, o último post sobre as poucas 24 horas do relógio. 

Exercício

2013 não foi um bom ano. Teve momentos espetaculares, é certo, mas foi, em geral, um ano muito, muito difícil. E terminou, fazendo jus aos meses anteriores, da forma mais atribulada de que se lembrou. 2013 foi o ano em que, pela primeira vez, aceitei a desistência. Acho que nunca antes tinha desistido de nada, e admiti-lo, mais até do que o fazer, foi uma guerra comigo mesma, durante tanto tempo que nem gosto de pensar. Foi um ano em que perdi alguém que me era querido – e, pior do que isso, querido a uma das pessoas mais importantes da minha vida. Por mais vezes do que que desejaria, em 2013, deixei também fugir a esperança. Dezembro, e o calor das festas que lhe é caraterístico, e que eu vivo e apregoo aos quatro cantos do mundo, traiu-me no dia em que não o poderia ter feito. A véspera de Natal, a chuva e aquele lugar concreto foram, desta vez, apenas amontoados na minha memória, de um acidente que eu tentei, durante segundos que me pareceram uma eternidade, evitar. E, por isso, a ceia não teve o mesmo sabor. Nem o dia seguinte, em que tudo me pareceu banal, apesar de todos os momentos alegres, animados e de aquecer o coração com as famílias (a minha e a emprestada, dele).

2013 não foi um bom ano, e eu já queria que tivesse acabado há muito tempo. Em maio/ junho, ouvia o meu pai dizer o mesmo. Ainda assim, foi um ano em que fui também muito feliz. Em que tomei decisões que, ainda que por motivos vários não tenham mudado a minha vida, vão mudar, em breve. Em 2013, ri muito mais do que chorei. Fiz muito mais do que disse que iria fazer. Ofereci finalmente as prendas que queria oferecer. Superei-me profissional e pessoalmente em situações e desafios com que, há uns tempos atrás, não teria sabido lidar. Foi o ano em que ele acabou o curso, e essa era também já uma meta minha. Cozinhei mais e melhor, envolvi-me em 100 projetos extra, vi o meu tempo desaparecer e tornei-me mais serena, mesmo com o aumento de todo o stress e ansiedade exteriores. 2013 acabou finalmente, e ainda bem. Agora é, literalmente, tempo de fazer as malas, que a próxima viagem está agendada para dia 10, e mete aeroporto..

Para 2014 as resoluções ficaram escritas a dois, nas notas do telefone, em viagem. Não as levo muito a sério. Não me levo, a mim, muito a sério.

(Redigido a 02.01)

Dizem que atraio

Estão a ver aqueles filmes em que os protagonistas trocam de corpo e vivem a vida um do outro durante um tempo? Eu gostava mesmo que pudessem estar na minha pele por um dia, assim à vez, e em vez de cinema, teatro ou outra atividade lúdica. Porque eu digo que sou azarada. E, em muita coisa, até sou. Mas o que prima na minha vida é aquele tipo de azar que dá, geralmente, azo a peripécias inesquecíveis e momentos deliciosos. Daqueles de filme mesmo. Que me fazem rir, à brava. Que me ensinaram a rir de mim, a ser mais desenrascada e a viver de forma muito mais paciente. 

É certo que nem sempre gosto de ouvir o carro riscar num poste. Ou  de entornar o almoço na mala, a caminho do emprego. Nem sempre me diverte perder duas vezes a sabrina do mesmo pé - sim, isto também me aconteceu (comprei dois pares de sabrinas iguais, e das duas vezes perdi o pé direito). Confesso, todavia, que estas coisas não me incomodam se não muito temporariamente. Por vezes, nem isso. E há alturas em que percebo, claramente, que irritam mais as pessoas que estão à minha volta e não percebem porque estou tranquila, do que os meus nervos. 

Eu sou aquele tipo de pessoa que sai à rua de ténis brancos quando está um sol radiante e, sem que nada faça prever, cai uma carga de água, põe o pé na poça, fica cheia de lama, tropeça e torce o pé, deixa cair as folhas que tem na não ao chão, vê um carro passar por cima de metade enquanto o resto voa e que retorna a casa, depois de algum tempo a tentar reunir todas, apenas para perceber que perdeu o único documento que interessava. No dia seguinte, no trabalho, continuo a ser a pessoa a quem pedem exatamente o papel desaparecido, algo de que nunca quiseram saber. E eu, já pronta para contar a verdade, sou o tipo de pessoa que se sente obrigada a inventar algo mais credível para justificar a vida. Mas não o faço, e ainda bem. Porque quem convive comigo já se habitou de tal forma a este tipo de episódios que a sua inexistência é estranha. Para eles, e para mim.

Quando digo que sou azarada, nunca o faço de forma negativa. Há sempre tendência, porém, após um primeiro desabafo com alguém de fora, para me perguntarem nos dias seguintes se "as coisas já estão bem", ou para me dizerem que "a partir de agora, já só pode melhorar". E eu sorrio. E concordo, genuinamente. O que eles não sabem é que eu não tenho qualquer receio que não melhorem. Isso acontece, sempre, mais tarde ou mais cedo. Nem preciso que elas passem, porque sei que situações destas voltam. E dão-me mais histórias para contar, mais momentos para rir e mais descargas para ter. Descargas emocionais entendam-se, que este não é um texto zen - menos ainda esta que vos escreve. Mas eu grito, esperneio e obrigo toda a gente a ouvir-me, para no fim respirar fundo e deitar-me feliz da vida, independentemente de estar há mais de 3 meses à espera que arranjem o meu carro, de ter a mão com três queimaduras enormes conseguidas com salpicos de molho ou de nem mexer o pescoço, porque ao primeiro raio de sol do ano, as minhas amígdalas inflamaram e incharam.

Grande parte do meu azar pode também chamar-se de extrema capacidade para ser desastrada e despistada. Mas isso já não interessa nada para esta história...

(Redigido a 10.04)

Coisas que o meu pai pensa #1

Que eu bebo vigor magro porque a embalagem é cor-de-rosa.

O Pequeno-almoço


Depois da primeira noite de sono completa em toda a semana, achei que merecia um pequeno-almoço a sério. Daqueles a que temos tendência a chamar de "hotel", como se em algum hotel em que tivéssemos estado servisse panquecas (bem feitas e ainda quentes). Estas foram feitas com farinha integral, honestamente porque já não havia da outra. E leite de soja de maçã, pelo que achei por bem caramelizar algumas para o topo. Ficaram ótimas, e desta vez até os homens da casa concordaram comigo.

Toda a receita aqui

O Regresso

No último semestre do ano passado, enjoei o blogue. Palavra. Fui fazendo um esforço, entre o tempo que era cada vez mais reduzido, e continuei a escrever, porque isso ainda apetecia. Mas não gostava do espaço, da imagem, dos textos que saíam desformatados e prontos para me irritar. Não tinha, todavia, a disponibilidade mental para me dedicar a uma renovação completa. Nem a inspiração, sobretudo isso. E, portanto, não forcei. Deixei-me estar pelo Facebook, quando vinha a vontade. Ou a guardar momentos no Instagram, porque sim. E a coisa foi-se fazendo, esse isolamento virtual que, por vezes, eu comparava a férias merecidas.

Janeiro trouxe a vontade de voltar à rotina, embora tenha também dado as boas-vindas a um ritmo de trabalho cada vez mais exigente e difícil de conjugar com qualquer atividade paralela. Desta vez, a coisa já não passou. A vontade de voltar a um canto que eu já não reconhecia como meu manteve-se nula, mas precisava de escrever. E foi o que fiz. Agarrei-me ao blogue de testes e chutei para lá todos os meus rascunhos imprevisíveis e temperamentais, e aguardei por um rasgo de criatividade que me fizesse querer voltar a mexer em imagens, cores e medidas. Ele veio, quando teve que vir e, como para tudo o que realmente queremos, arranjei tempo no meio dos dias sem horas.

Eis o resultado. Com detalhes que só quem fez se lembra das horas que perdeu. Mas exatamente como queria. Como eu queria. Vem na altura certa, na fase em que encerro um capitulo de mais de três anos da minha vida. E simboliza isso mesmo: uma mudança que deu trabalho, que requereu coragem e que me fez arriscar, por uma tela quase em branco, na qual agora me apetece mesmo, mesmo escrever.

São mais 5 dias. Depois, conto-vos tudo.

É para aprender que ao domingo não se vai ao ginásio

Esqueçam lá a dor de dentes, rins e parto.
A pior dor do mundo é aquela que fica depois de mais de uma hora de bicicleta, num selim duro e estreito.

Pequenos apontamentos

1. Passei os olhos pelo Facebook em modo expresso. Lá estava a Cláudia Vieira, com aquele sorriso característico enorme e bem-disposto, a dizer que ia ao teatro. E eu, que adorei o programa, não pude deixar de pensar: mas quem é que tem vida para ir ao teatro durante a semana? Já tive, já tive...mas não sei o que lhe aconteceu.

2. Acho que quase todos os recém-nascidos são feios. Palavra. Já sei que não posso falar enquanto não tiver um. Mas continuo com dois olhos na cara e uma opinião. Ainda assim, esta notícia faz cair a teoria de que todos os pais acham que estão perante os bebés mais lindos do mundo. E com esta até eu fiquei de boca aberta.

3. Só agora é que vi as infames declarações da Margarida Rebelo Pinto à RTP. Erg...estava à espera de melhor. Deste discurso já nem vale a pena fazer pouco. Mais do mesmo, e sem nada de tão escandaloso assim. Imprudente e pouco inteligente. Mais do mesmo, como dizia. Estou a ficar repetitiva, como ela. Sai para lá...

4. Vai para mais de um mês que não ponho os pés no ginásio. E olhem que todos os dias me tenho levantado entre as 05h30 e as 06h00. Oh vida! 
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