Pronto, está bem...
Eu queria sol. A sério que sim. Ainda não estou preparada para abdicar da praia, dos dias mais longos (que saudade!), dos vestidos compridos que são, como a irmã diz, à deusa grega, ou dos gelados substitutos de refeição. Mas já que tem de ser, vou convidar algumas fofinhas para virem viver comigo até nos habituarmos à ideia. Quinze minutos de passagem num centro comercial. Repito: minutos. Resultou nisto (pré-seleção mental, não se apoquentem):
Eu e os cães
Desde pequena que tenho cães. Na realidade, tive dois (duas, para ser mais precisa) e convivi com outros tantos. Ficou por aí, porque ambas morreram, como tinham que morrer, de velhice. Mas nem por isso deixou de ser menos doloroso. E, claro, aos 16 anos não há muito que possamos fazer que não seja chorar baba e ranho e resignar-mo-nos ao facto dos nossos pais não (nos) querem (fazer) passar por tudo de novo. Logicamente, a paixão assolapada por cães de grande porte só veio impossibilitar ainda mais a coisa. Não morávamos num apartamento, mas o pequeno quintal nunca seria, nem de perto, nem de longe, o que um Serra da Estrela ou um São Bernardo poderiam merecer.
O tempo foi passando e as minhas interações limitaram-se às festas aos cães das amigas e familiares, e aos olhares mais demorados nas montras das lojas. Nunca fui pessoa de querer ir tocar e dar beijinhos aos animais de desconhecidos, que passam na rua e para os quais parece haver uma atração inexplicável de muita gente. Nunca me chateei muito com a decisão do poder paternal. Mas também nunca escondi que, uns anos mais tarde, assim que estivesse de partida, mais do que mobília, procuraria um cão. E assim foi, mesmo sem teto definido, encontrei exatamente o que sempre quis no Olx, esse ponto de passagem romântico e cheio de possibilidades. E logo surgiu a primeira barreira (para os outros, claro; é sempre para os outros): Então mas vais pagar por um cão quando há tantos abandonados a precisar de ajuda?
Pois vou. Não tenho qualquer problema com isso. As duas cadelas que tive foram dadas, e os filhotes da segunda, cocker com pais de competição, dados foram. Mas nunca percebi a objeção de toda a gente em relação ao comportamento contrário. Então mas e se ninguém comprar os cães que estão para venda, o que lhes acontece? Se, de repente, toda a gente deixasse de comprar cães? Sim, os donos poderiam deixar de os criar. Está certo. Mas eu não vou comprar um cão do futuro. Vou comprar um cão de agora, que já nasceu. E que precisa e tem o mesmo direito a um lar que todos os outros. Se ele fosse comprado por outra pessoa, abandonado três anos depois e atropelado até se desgraçar completamente, então já o poderia adotar? Já seria correto e eu uma boa samaritana? Senhores, o cão é exatamente o mesmo. E da exata mesma forma que compro, é só uma questão de espaço e disponibilidade (temporal e mental) para adotar, se assim o quiser. Uma coisa não invalida a outra.
E há, claro, todo um conjunto de fatores que pesam: eu procurei um cão que possa ser habituado, desde muito pequeno, a ficar sozinho durante várias horas. Que não esteja acostumado a estar sempre aos pulos e rodeado de pessoas. Com uma personalidade relativamente tranquila e uma capacidade de adaptação mais sólida. Um cão de porte pequeno que, apesar de quase sempre estar associado a um sistema nervoso pior do que de qualquer outro, se saiba menos agitado. Que não vá ficar a ladrar, num tom fininho e desesperante, todo o dia para os vizinhos. Sou esquisita por mim, pelo bicho e pelo respeito às pessoas que me poderão rodear. Porque sei que não vou alugar um T5 com terraço daqui até ao mar. E mimimi que conhecem uns cães mesmo fixes que se portam espetacularmente e que estão no canil apenas à espera de amor e carinho. Que parecem responder a todos os meus requisitos e ainda saem de borla. Conseguem garanti-lo? Porque a disponibilidade para adotar deve ser nada menos do que total e sem restrições. E eu tenho-as.
Na minha singela, a adoção animal deveria ser considerada com a mesma seriedade que a adoção de uma criança. E este tipo de pensamento, que por acaso é o meu – e me torna pouco isenta na afirmação seguinte – diz-me muito mais que se gosta a sério de animais, do que o das pessoas que, euforicamente, os tentam despachar para todos os lados. É preciso estarmos preparados para lidar com a história do cão adotado e para nos adaptarmos a esse animal, em vez de ser ele a adaptar-se a nós. Não estou a dizer que a vida não muda quando os temos, venham de onde vierem. Há os passeios, as vacinas, os banhos e as rotinas que passam a integrar as nossas. Já os tive, lembram-se? Não venham os puritanos misturar conversas. Mas a vida não muda ao ponto de não poder ter crianças em casa porque tenho um animal traumatizado que não deixa que lhe toquem, ou de ter de dormir de luz acesa porque a escuridão o assusta, como já vi acontecer. E como já vi não passar, apesar de todas as tentativas. Se merecem um lar? Claro que sim. E três vénias seguidas a quem verdadeiramente lhos proporciona, sem qualquer limite e com toda a paciência do mundo. Mas eu também mereço ter direito a fazer essa opção. E se não me sentir preparada para isso, ou se sentir que não tenho condições – porque não tenho aos mais diversos níveis – ninguém tem nada a ver, nem nada que julgar. Porque nenhum cão deve ser minimizado, muito menos com o argumento monetário, apenas por não ter sido ainda sofredor o suficiente para ser caso de piedade e, portanto, merecedor da minha atenção. Peloamordedeus. Custa-me ainda mais perceber e interiorizar esta lógica porque vem geralmente de pessoas ligadas a associações de proteção que, supostamente, deveriam ser as primeiras defensoras de um amor incondicional pelos animais, independentemente das suas características e condições. Não sei como se vive a situação noutros países. Aqui, todavia, não deixa de ser incrivelmente português (e eu nem tenho por hábito lembrar-nos pelo aquilo que temos de pior). Mas é a apologia do coitadinho para todas as situações. A velha conversa do dever de ajudar. Quando a ajuda real não obrigatória nem da conta de absolutamente ninguém.
Para o mesmo peditório entram os apelos que nos chegam em todas as redes sociais e caixas de e-mail. Mas essa é conversa para post de continuação, que este já vai longo.
Segunda-feira, mas primeiro dia
Há sempre um misto de sentimentos quando a questão é aquilo que queremos versus aquilo que devemos fazer. Quase sempre, aquilo que quero garante muito pouco quando comparado com aquilo que já faço. E é preciso fazer para poder pequenas coisas, como sair de casa ou ir até um país vizinho. E depois, vai-se a ver e na realidade eu quero ainda mais estas duas últimas coisas. E por tanto querer, não devo enveredar por outros queros. Temporariamente, claro, que a vida é feita desta perseguição de gostos que vão muito além dos do Facebook. Mas são escolhas que não deixam de nos moer, aos poucos e, sobretudo, quando a realidade que conhecemos estás prestes a mudar. Possivelmente, para pior. Não me entendam mal. Não vivo uma vida que não me pertence. Tendo, porém, a pensar em todas aquelas que posso tentar. Não somos todos assim? Bem, talvez não. Eu sou. E dou por mim, volta na volta, a querer construir algo próprio, mais meu, que me dê uma satisfação que nunca irei buscar a outros. Uma liberdade diferente. Um horário adequado à minha produtividade. Mais oportunidades para escrever. Mesmo com todas as vozes que logo gritam, ecoando na minha cabeça, que a vida não está fácil. Não está, e eu não me importo. Porque um dia, mesmo não estando, posso já ter bases para a complicar ainda mais, bem ao meu gosto.
A não ser que me peçam segredo...
Eu gostava de ser como aquelas pessoas que guardam para si informação privilegiada só para mais tarde poderem dizer 'estava só a ver quando me contavas'. Como aquelas mulheres, que descobrem alguma coisa sobre os namorados, maridos, companheiros e periquitos (bem, talvez não sobre estes últimos), e aguardam pacientemente que sejam eles a revelar-lhes a novidade. Porque deveria ter sido assim desde o começo, porque cabe-lhes a alegria de contar ou simplesmente para os apanharem em falso. Mas não sou. Nem para o bem, nem para o mal. Sei de uma coisa que pressinto não dever ter sabido assim e vou a correr desbroncar-me toda e confrontar a pessoa. Mesmo que ela esteja a preparar algum tipo de surpresa, ou a aguardar por um momento melhor para ma revelar. Qual boi a puxar a carroça. Não quero nem saber, vou apenas em frente e sempre com a mesma força.
Eu não sou a pessoa mais paciente do mundo. Não para estas coisas.
Não há nada a fazer.
Páginas soltas
"Ela gostava de pensar que o dia seguinte seria tanto mais assustador quanto inesperado. Dizia-o a quem o quisesse ouvir. Na realidade, porém, eram as coisas demasiado definidas que a deixavam com medo. Saber exatamente o que estaria por vir: tudo aquilo que adiara por dias e dias. Anos, quem sabe? Costumava gabar-se dos acordares fáceis e despachados. Mentia com todos os dentes. A coragem faltava-lhe, quase sempre, para tirar a cabeça da almofada e erguê-la para um novo desafio. Ainda assim, escolhia meticulosamente o seu melhor fato, o mais vivo, com o corte mais elegante. Perdia o olhar pelas centenas de sapatos, e optava pelo mesmo par de sempre. Aquele que tinha em dez cores diferentes, por gostar tanto. Aquele que só usava em preto, porque dava com tudo.
Deixava-se ficar por um bom tempo em frente ao computador. Às vezes - quase sempre - para nada. Deambulava pela Internet, como quem o faz por rotina. Como quem olha para a TV enquanto dialoga com o coração. E às vezes - quase sempre - o coração pedia-lhe que o ouvisse. A trajetória da manhã incluía duche longo, com tempo para champô, duas vezes, e três minutos de máscara. Dava para duas músicas da primeira listagem que criara no Spotify, antes de ouvir a publicidade. Pensava sempre em fazer o upgrade para um serviço premium, que não gastasse os seus preciosos minutos de descontração matinal com vozes que não queria ouvir. Todavia, sabia melhor que ninguém que era impossível perturbar quem já estava perturbado, ou acabar com a descontração de quem apenas finge estar descontraído. Existia algo de familiar no ouvir, repetido, daquela voz, que a acompanhava sem receios, pudores ou desculpas. Sem nunca falhar. Continuava a dizer-se irritada porque era mais fácil. É sempre mais fácil não admitir.
Ela gostava de acordar muito cedo, mesmo com todos os medos. A falsa segurança, da ideia de ser a primeira, confortava-a. Saber que poderia concertar tudo antes do momento em que esperavam que o fizesse, deixava-a estranhamente tranquila. Tanto quanto quem está, sabendo que não passa de uma mentira. Talvez por isso se tentasse mostrar desconfortável por demorar cada vez mais tempo. Por perder sempre a prioridade, única e exclusivamente por sua culpa. Porque tão rapidamente lhe parecia certo o ataque pela madrugada, quanto o anoitecer, que enchia as ruas de pessoas e a protegia, no meio da multidão".
Mensagens da tecnologia
O meu outlook esteve as duas primeiras horas da manhã sem funcionar.
Creio ter sido a forma que encontrou para me dizer que hoje deveria, mesmo, ter ficado em casa.
Setembro e o medo
Kate Winslet por Mario Testino
De há 3 anos para cá, setembro traz-me apenas más notícias. É daqueles meses que nos põe à prova, e não apenas porque o verão terminou. Costumava gostar do regresso e da sensação familiar da rotina. Hoje, sei que mais facilmente reencontro o inesperado. Um destes setembros trouxe a notícia de uma doença grave. Não minha, mas suficiente próxima para ter mudado a minha vida. Entre empregos e desempregos, preocupações familiares e estilos de vida reformulados, tudo passou a ser diferente do que era até então. Tudo ficou marcado por uma vida que não volta mais.
Lembro-me muito bem de no ano passado ter começado o mês assustada. Pensava muitas vezes que os dois anteriores tinham sido os mais dificeis de sempre e não queria voltar a passar pela mesma angústia sem estar preparada. Em vão, tentei pintar todos os cenários e assegurar que poderia controlar o rumo de tudo. Esperei, consciente. Esperei, esperei e esperei. Nada. Um arrufo de namorados pelo meio, quando já não contava. Mesmo assim, nada - repito - que possa caraterizar sequer perto do nível de choque dos outros. E pronto, outubro chega e a ideia da maldição de setembro fica enterrada comigo a dançar por cima da campa.
Hoje, setembro como eu o conheci nos últimos anos voltou, quando eu já não o antecipava, quando eu já o iniciei sem qualquer lembrança passada a marcar os meus dias. Não voltou com a mesma dor, não da mesma forma direta, mas com todo o mesmo sofrimento de muitos dos que me rodeiam. E custa na mesma, sentir através daqueles de quem gostamos. Oh se custa. O trabalho ficou para trás, a cabeça já não estava lá mesmo, e o dia foi dedicado a tornar tudo um bocadinho menos difícil.
Em 3 setembros, 4 com o de hoje, recordo apenas um sentimento comum. Quer nos dias malgrados, quer na sua antecipação: o de cansaço. Um cansaço extremo que não passa. Talvez porque saiba que tenho que recomeçar, e é um recomeço muito mais batalhador do que o de quem volta ao escritório do costume. É um recomeço, mais uma vez, de uma nova forma de estar na vida.
Conversa de chata
Estou em pulgas pelo lançamento oficial do IOS7. Quero ver também o iPhone 5S e, sobretudo, saber se vem realmente um 5C. Em qualquer outra marca, poderia conquistar-me, mas com as cores garridas que se prevêem, ter um iPhone neste modelo é o mesmo que anunciar ao mundo uma escolha plástica e de baixa qualidade, só porque é mais barata. Um bocadinho na lógica de “não tenho o a sério, mas diz iPhone na mesma”. Para isso, porque não um outro smartphone qualquer, com o mesmo custo e melhores caraterísticas? Só porque não vai ter a maçã? Estou de pé atrás e pronto, ainda que curiosa e expectante numa apresentação que destrone estas convicções.
O IOS7 vem com novo design. Também me chateia um tanto ou quanto. Sou relativamente casmurra e avessa a (este tipo de) mudança. Parece bonitinho e funcional. Mais clean. Vamos dar-lhe o merecido benefício da dúvida. Até porque com a marca, pelo menos na era de Jobs, nenhum pormenor foi pensado ao acaso.
Em termos de funcionalidades, estou particularmente ansiosa por pôr à prova o sistema multitarefa que apregoam.
Vamos lá ver, vamos lá ver. Rápido, por favor.
Isto é mesmo conversa de chata, bolas.











