Gosto tanto destes meninos


Do You, Stars, Learning to breath, Dare you to move e outras que tais. E nem sequer conhecia os albúns de dois mil e carquejos para a frente. Esta vem direitinha do "Hello Hurricane", de 2009. Foi uma agradável surpresa descoberta quase dois anos depois, mas mais vale tarde do que nunca. Tenho muita pena de nunca os ter visto por cá, mais ainda que a maioria das pessoas nem sequer conheça.

Erros de GPS ou Desisto!


Então onde é que tirou a sua licenciatura, menina?
Na Universidade Católica...
E o mestrado, está a acabar onde?
Na Escola Superior de Comunicação....
(interrompendo) Em Benfica?
Sim, em Benfica.
E a licenciatura?
(eu, desesperada) Na Universidade Católica Portuguesa.
Ah, pensei que tivesse sido na Escola Superior de Comunicação Social, como é lá em Benfica também, mesmo junto à Escola Superior de Comunicação...

(?????)

Nota mental: acabar sempre, sempre, sempre os nomes das escolas e afins, não vá alguém achar ser possível existir uma de comunicação exactamente ao lado de uma de comunicação social sem sequer desconfiar que se está a falar da mesmíssima coisa.

Eu e o meu carro - O regresso


Eu juro que aquele carro está embruxado. Está ele ou eu, mas vamos partir do pressuposto que eu não sou para aqui chamada. Até porque, vendo bem, de estranho só tenho uns soluços esquisitos que assustam meio mundo e o meu olho direito que deita vapor de água. Nada que aponte para que algo de errado se passe. É por isso que a culpa é sempre do carro - e geralmente até faz sentido que assim seja.

Já ficou sem travões em descidas (escrevi sobre isso aqui no blogue, mas estou cansada para procurar). Já usou o painel de controle como árvore de natal e permitiu-se piscar as luzinhas como se tivesse piada. Já me trancou lá dentro, a última vez ainda esta semana. A porta do condutor quase nunca funciona, o que me faz parecer muito mais fixe por entrar pelo lugar do pendura ou, em desespero, tentar o porta-bagagens. Isto, claro, quando o porta-bagagens abre. Já me engoliu objectos - eu não estou a brincar, garanto. Não consigo dizer isto de uma forma que pareça menos gozona, mas o banco do pendura engole-me os objectos que lá coloco: primeiro foram os óculos, dias depois foi a caixa. Ficou com o conjunto completo e eu, mais uma vez, com a carteira vazia e um ar de parva na cara. Eu explico às pessoas que tinha os óculos na cara (coisa que eu faço religiosamente enquanto conduzo e largo no momento em que o motor pára). Desliguei o carro e deixei os óculos no banco por uns segundos. Quando agarrei na mala para sair e correr para as aulas, e os procurei para os levar, tinham desaparecido. Não procurei em detalhe logo, estava com pressa, mas quando voltei verifiquei canto a canto e, até agora, absolutamente nada.

Hoje acordei com a sensação de sexta-feira, de poder tomar o pequeno-almoço na sala com calma, espreitar a Ally McBeal e demorar-me um pouco mais. Tendo a acordar mais cedo à sexta para o poder fazer, na prática até descanso menos, mas os minutos que passo a poder perder para mandriar sabem-me pela vida e lembram-me que já só faltam umas horas para abrandar o ritmo. É claro que panhonhice bem jogada dá asneira. Saí porta fora e esqueci-me das chaves do meu carro. Este foi o primeiro sinal.

Voltei atrás, trouxe as chaves e esqueci-me do passe para o metro. Cheguei ao sr. roubado, estacionei e fiz-me à estação. Quase lá, vi que me faltava algo e voltei para trás: ainda tinha tempo de ir de carro para Lisboa e fazer o caminho para o trabalho a pé. Começo a andar mais rápido para o carro. Pelo caminho de volta, contudo, lembro-me que a minha irmã estará também no sr. roubado dentro de 15 a 20 minutos. A mesma que eu passei a noite anterior a procurar convencer a vir comigo de boleia, já que a diferença horária era mínima e escusava o pai, feito amoroso, de a ir levar. Não quis. Este foi o ante-sinal. Pedi-lhe ajuda com o passe, desligou-me o telefone na cara. E este foi o segundo sinal. Liguei para o meu pai ignorando os macaquinhos na cabeça que me diziam para me fazer à estrada antes que fosse meio-dia e eu continuasse à espera de um passe. O pai disse que sim, que o levava, mas que estavam atrasados e que eu teria que esperar. Este foi o terceiro sinal. Eu podia ter voltado para trás, pois que podia e tudo indicava que o devesse fazer desde o dia anterior. Se a minha irmã tivesse simplesmente vindo comigo, teria seguido directamente para Lisboa por não ter outra alternativa. Em vez disso, deu-me para a sovinice e sentido prático e achei que faria melhor figura quieta e à espera.

Quase 12 horas depois do abandono matinal,  feliz da vida por ser fim-de-semana e poder ir para casa enfiar-me na cama e esquecer o nariz entupido, a tosse, os espirros e os eteceteras, encontro o meu carro, ali no mesmo sítio, sem matrícula. À primeira ainda passou, vi o carro e continuei em frente como se não fosse comigo. Era muito mais provável ter deixado o carro num sítio diferente do que encontrá-lo sem a tira branca. Não passaram muitos segundos até perceber que sim, que aquele era o meu focu (sem o "s" senhores, o "s" já caiu há uns anos), único e igual a si. Primeiro pensamento de Miss C.: "queres ver que eu bati com o carro hoje de manhã, deixei cair a matrícula e nem dei conta? Agora vou contar isto ao pai como?". Sou uma pessoa extremamente atenta, como é possível deduzir. Graças a um rasgo de lucidez, espreitei a traseira e percebi que talvez a culpa não fosse minha. A matrícula estava caída no chão (ufa, que alívio!), sem um único número (sem comentários).

1.º telefonema:
Pai, roubaram-me as matrículas.
Roubaram-te as matrículas?
Sim, bla bla bla.
Então olha, vem andando devagar e amanhã tenho que te ir comprar umas novas.
Mas não tenho que chamar a polícia? Isto costuma ser para fazerem assaltos.
Pois, talvez, não sei... Vem vindo que vamos à polícia a seguir.

2.º telefonema:
Olha, oh Cherry, se um polícia te mandar parar pelo caminho e te perguntar pelas matrículas tu dizes: "Ai a sério sr. polícia? Nem tinha reparado! Vim agora do trabalho e entrei no carro e nem vi".
....
Quer dizer, ou então telefona para aquele polícia que tu conheces e pergunta-lhe o que deves fazer.

3.º telefonema (já a sair do parque de estacionamento):
Bla, bla, bla estou sem matrículas.
Fod*-*#! Não saias daí, tens de chamar a PSP da zona e participar.

4.º telefonema (de volta ao ponto de partida)
Olá namorado, nem imaginas...roubaram-me as matrículas, agora estou aqui à espera da polícia.
Roubaram-te o quê?
As matrículas.
Onde?
Onde costumo deixar todos os dias.
Enquanto estavas no trabalho?
Sim.
Ahahahahahahaha.

E é isto a minha vida.
Deixem-me só ir babar a almofada que amanhã, com mais calma, pode ser que haja direito a parte II. É que na esquadra é que aquilo foi giro à brava.

Meridiano de Oliver

                                                                                                                       Jamie Oliver

Só existem verdadeiramente dois momentos quando chego a casa: um é o antes do jamie's 30 minute meals, o outro é o depois. Antes ainda é cedo e tenho imenso tempo para fazer uma data de coisas. Depois já é tarde e tudo parece demasiado chato, cansativo e exigente para quem só quer dormir. É mais ou menos o que acontece com o fim-de-semana: à sexta sinto que tenho o mundo pela frente; ao domingo acho que acabei de sair do escritório.

Esta conversa lembra-me que quero comprar um almofariz.

Are you living your dream?



De há uns tempos para cá tenho absorvido todos os pequenos vislumbres de um sonho antigo que insiste agora em ganhar forma. Sem motivo ou explicação, a meio da noite, entre dezenas de pessoas na mesma carruagem de metro, enquanto a chuva cai no pára-brisas ou sempre que a minha mente vagueia para longe. E aos poucos e poucos tudo se constrói, as coisas assumem contornos mais reais e cada pequena descoberta, cada novo detalhe, são lembranças constantes de que é possível. Vou viver o sonho e contar-vos como foi; e de hoje a um ano, aqui mesmo, marcamos encontro.

Tem-me custado escrever este post

                                                                                                                                                      Black Swan, 2010

Nunca enchi a boca para dizer que sou invencível. Nunca achei que a minha família o fosse. Pelo contrário, sempre soube e fui sabendo das fragilidades e dos telhados de vidro mais próximos, dos erros com que se aprende - se não quem os comete, quem com eles lida -, das injustiças que acontecem e que nunca se ultrapassam, e dos defeitos que, sendo do mais comum que há, todos nós temos. Cresci assim e tudo isso faz parte de quem hoje sou. Limou-me os traços da personalidade que sempre me manteve afastada de tudo o que é prejudicial para a saúde, do tabaco à heroína, e do excesso de álcool à ditadura dos adolescentes. Não dei "uma passa" porque todos na escola davam, e experimentei o primeiro e último cigarro em casa, e a seguir contei à minha mãe. Uma das minhas mais fortes recordações da viagem de finalistas envolve uma casa de banho, uma rapariga praticamente inconsciente de tão bêbada e um rapaz que teve que lhe colocar dois dedos na garganta, para que ela pudesse vomitar e voltar a ficar bem. Não foi comigo, mas a imagem marcou-me como se tivesse sido. Já vi uma das pessoas de quem mais gosto deixar-se engolir por um buraco tão escuro que até hoje fico surpreendida de cada vez que o vejo e percebo que já passou.

Nunca enchi a boca para culpar ninguém. Nunca achei piada aos excessos e às substâncias prejudiciais que se tomam em exagero, só porque é "fixe" ou apimentam uma festa. Mas nunca me opus, nunca comentei, nunca abri a boca sem ser para dizer "para mim não, obrigada". Compactuei, fechei os olhos e abanei a cabeça. Hoje, acredito que devesse ter gritado muito de todas essas vezes, porque se há coisa que nunca fiz foi admitir o quanto isso me tira do sério, o quanto todas essas atitudes me fizeram sentir falta de pessoas que mal conheci, ou sofrer por aqueles com quem convivi.

Hoje, revolta-me ouvir falar de condutores embriagados, de pessoas irresponsáveis, de adolescentes que se julgam com super poderes. Dá-me a volta ao estômago saber de pessoas da idade do meu irmão mais novo que vão para o hospital em coma alcoólico desde os 11 anos e que isso é "normal". Quanto mais não seja, porque já vi a ambulância que chegou à festa da cidade, aquela dada em local público, num espaço com 90% de menores como clientes, em que são servidas cerveja e vodka como se não houvesse amanhã, sem uma única pergunta. E apetece-me dar dois pares de estalos a todas estas pessoas, porque para mim não é desculpável viver assim, "só" porque não se prejudica mais ninguém, até porque isso nunca acontece. A história do "bebe para aí até morreres, é contigo, mas não conduzas bêbado porque matas alguém" nunca me pareceu fazer sentido. Onde ficam todos aqueles bocadinhos de nós que morrem quando não podemos ajudar aqueles que queremos? Aqueles pedaços que perdemos sempre que vemos um amigo desaparecer dentro do seu próprio corpo? A dor que vem de um coração que deixámos de ouvir? Onde fica tudo isso quando é "só" uma pessoa a fazer mal a ela mesma? Quando não houve nenhum embate numa família de desconhecidos que agora chora um atropelamento? O embate que sofremos tem que ser menor porque é connosco?

Hoje, queria muito poder esmurrar a maioria destas pessoas, destas que eu conheço e que vejo assumir os mais estúpidos, idiotas e inconscientes comportamentos. Queria muito atingir-lhes fisicamente até perceberem que faz doer. E a todos os outros também, a todos aqueles que eu fosse encontrando pelo caminho e que fosse vendo auto-degradarem-se por iniciativa própria. Não por terem uma doença rara, não por serem do mais saudável que há e acordarem um dia com um cancro ou outro problema auto-imune sem solução, não por terem que lutar num combate que não travaram. Queria poder fazê-los sangrar até se lembrarem que por dentro o vermelho que corre é igual para todos, todos nós que somos igualmente mortais. Porque o que me enerva e me deixa com raiva é saber que há quem escolha deliberadamente morrer mais rápido. Geralmente, são os mesmos que não ouvem quem os rodeia ao longo do processo e que se esquecem fazer também parte de outros.

Há outra história que me dá voltas ao estômago; é aquela que contam os das angariações de fundos ou os dos anúncios de solidariedade, aquela que nos diz que "as coisas más não acontecem só aos outros". É, obviamente, uma mentira mal contada. As coisas más  acontecem aos outros, única e exclusivamente. A mais ninguém, nunca. O problema, talvez, é que os "outros" somos todos nós, todos aqueles a quem isto ou aquilo ainda não aconteceu. E o ainda pode até nunca chegar mas, nesse caso, somos  muitíssimo sortudos e nem o sabemos. É por isso que antecipá-lo com desafios, comportamentos e provocações constantes não pode ser senão demasiado parvo.

Tudo muda num segundo sem que possamos fazer nada, quer tenhamos ou não coragem para o enfrentar, quer sejamos ou não suficientemente humildes para o admitir.  

September 11th | “‘Forgiveness’ is giving up the hope that the past could’ve been any different”


O programa da Oprah, que acabou de passar na Sic Mulher, falava de duas raparigas gémeas que foram física e sexualmente agredidas dos 5 aos 13 anos pelos dois irmãos mais velhos e, mais tarde, pelo próprio pai. Começou por um, que as levava para a cave e as obrigava a acariciá-lo, a princípio, ganhando terreno. Logo surgiu o outro, interrompendo uma cena de violação já comum, na qual as irmãs, em desespero e recorrendo a todo o seu instinto de sobrevivência, imploravam para que uma fosse levada e abusada em vez da outra. Uma cena de violação já comum, daquelas que se repetia há tanto tempo que ambas conseguiam identificar o sofrimento e o medo na troca de olhares antes de algo acontecer. O segundo irmão saltou para cima do primeiro e, horrorizado, tentou impedir o que se passava naquele dia. Pouco tempo depois, estava também a fazer o mesmo. As miúdas contaram à mãe, vezes e vezes sem conta. Ela nunca "acreditou". Nem mesmo quando as surpreendeu no quarto, à noite, deitadas no beliche com os irmãos em cima. Virou as costas como se nada fosse. O pai, ao descobrir, pediu-lhes que repetissem e demonstrassem o que faziam com os irmãos, até que as duas percebessem que em vez de ajuda tinham alguém mais com que se preocupar. A mãe continuou a ouvir as suplicias delas, que a agarravam e a puxavam à noite, lembrando que iam ser violadas assim que ela saísse. Nunca ninguém fez nada, nada durante seis anos de noites consecutivas; de tardes, manhãs e três monstros que se aproveitavam à vez. Ainda sinto as lágrimas nos olhos. Ainda me sufoca o horror no peito, que está pequeno e apertado, incrédulo. A Oprah saiu-se com uma mensagem de amor que só lhe fica bem, daquelas que nos fazem admirar quem expõe estas histórias e envergonha estes animais. Explicou-lhes que perdoar era somente perder a esperança de que algo no passado tivesse sido diferente. Tenho para mim que nenhuma das duas alguma vez soube o que era acreditar, sonhar e viver. Como perder algo que nunca existiu? E como esquecer quem a roubou? Gostava de poder dizer que seria a pessoa com forças suficientes para ultrapassar algo assim, mas isto não é a história de um desconhecido que nos agarrou num beco, mas de uma dinâmica familiar que durante muito tempo elas acharam ser "normal". Estas coisas não se esquecem, não se perdem, nem se perdoam. Quanto muito, aprende-se a viver com elas, da melhor forma que conseguirmos, devagar e dia após dia.

É isto que é o 11 de Setembro. É isto tanto quanto dois prédios e milhares de vidas. É isto porque a revolta que sentimos no peito, a dor que não é a nossa mas que conhecemos nos relatos, e as lágrimas que nos pertencem mas que não conseguimos conter para nós, são exactamente iguais, exactamente as mesmas. Não é preciso um plano terrorista maquiavélico engederado em anos, apenas e somente uma má índole. É que a maldade, a monstruosidade e a loucura andam juntas e, enquanto tímidas e escondidas, são a mais suja e cobarde arma que alguém pode apontar. Infelizmente, uma das mais poderosas também.

Inesquecível


O vídeo não é meu e sequer mostra a amplitude daquilo que foi, o número de pessoas que lá estavam, o som das vozes que se ouviu e a intensidade de todo o espectáculo. Está muito perto, e ainda bem. Só assim para guardar os bons momentos e lembrar tudo o que aconteceu naquele palco: desde a ternura da filha, aos pés descalços e à surpresa do tambor. São recordações das que ficam, das que nos lembrm de que há sempre um lado bom da vida, nos mais simples momentos.

E quando a série do momento acaba e só retorna em Janeiro?

                                                                            Matt Bomer, White Collar

Damos por nós, inevitavelmente, a pensar, repensar, a analisar e a matutar sobre tudo o que nos tem acontecido nos últimos tempos, e descobrimos que não queremos ter tempo para o fazer. Não que ele exista por aí em abundância, anda preenchido e com cada vez mais coisas com que preencher. Mas há aquele momento, aquela altura do dia,  em que é preciso entrarmos numa realidade paralela onde a maior preocupação tem de ser torcer por um bom final para o ladrão giro. E mais disso agora só daqui a uns meses.
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