E foi assim
Maquilhagem #1
O espécime masculino, para além da barba que nos pica a cara quando lhes dá para a preguiça de a fazer, possui um dom extraordinário, muito próprio da raça: o de nos deixar perplexas. São uns valentões com a bejeca na mão, sempre prontos para mostrar o músculo; mas depois têm medo de ficar sozinhos com um bebé. Desde que se lembram de existir que lêm, investigam, falam e discutem sobre carros; mas quando o deles pára na estrada não sabem o que fazer. São eternos aventureiros: mesmo que não saibam o caminho insistem em continuar, ainda que essa decisão implique mais uma, duas, três horas perdidos. Mas preferem-no a pedir direcções a alguém. Têm destas coisas e não há nada a fazer. Eu, de vez enquando, vou descobrindo verdadeiras pérolas nas suas mentes. Eles são pais, irmãos, namorados e amigos que têm raciocínios ou fazem perguntas de que eu nunca me lembraria. Achei, portanto, importante inaugurar aqui uma nova rubrica, a partir de agora na etiqueta: "As coisas que eles sabem". Hoje é dedicada à maquilhagem: Estou a passar férias com um grupo de amigos, todos no mesmo apartamento. São +/- 23.00h e estamos a arranjar-nos para sair (os homens jogam ps na sala e as mulheres invadem os espelhos da casa de banho). Um dos homens vai ao quarto buscar o casaco e pára à porta da casa de banho, como se estivesse a ver algo de outro mundo.
Homem - O que é que vocês estão a fazer? (Estamos todas com um rímel, batom, base ou sombra na mão, mas não é suficientemente claro o que estamos a fazer).
Eu - Estamos a arranjar-nos.
Homem - E a pintar-se? (Não fui explícita e ele não percebeu que quando todas temos maquilhagem na mão, estamos em frente ao espelho e dizemos que nos estamos a arranjar, SIM, estamos a pintar-nos).
Eu - Sim.
Homem - Para quê? (Esta é uma daquelas que nunca percebi. Porque nos apetece, porque gostamos, porque vamos sair à noite e tirar fotos e queremos sentir-nos perfeitas. Havia de ser porquê? Um concurso de desenho na cara?!)
A minha pessoa suspira e ignora.
Homem (com ar notório de espanto, enquanto coloco base) - O que é isso?
Eu - Base.
Homem - Para quê? (Para quê????)
A minha pessoa volta a suspirar e ignora.
Homem (pensativo) - Olha lá, vocês também pintam as orelhas? (Acreditem que fiquei verdadeiramente espantada, parei e prestei-lhe, de facto, atenção. Não, ele não estava bêbado).
Eu - Claro que não. Porque é que haveríamos de pintar as orelhas?
Homem - Vocês não metem essa coisa na cara para ficar toda da mesma cor? ("coisa" - designação masculina para tudo o que não compreendem, mesmo depois de saberem como se chama).
Eu - Pois, é essa a ideia.
Homem - Então deviam pintar as orelhas também. É que sabes, ficam mais claras e...bem, a diferença nota-se!
Por esta é que eu não estava à espera.
Água fria sim, só não é da ribeira
Eram 03:58 quando acordei com um trovão. Voltei a fechar os olhos mas os meus ouvidos já tinham desperado para um "pling, pling" de água. Decidi acender a luz e certificar-me que estava tudo bem. Estava novamente a chover junto à minha janela. Para aqueles que não sabem, o meu quarto é num sotão, e sotão traz destas coisas. Afastei a TV e o PC, deixando-os a salvo, e voltei a enfiar-me nos edredons que me cobriam até ao nariz. Fechei os olhos. Não conseguia dormir, o "pling, pling" estava agora mais incomodativo; tinha-me entrado na cabeça e não conseguia abstrair-me. Voltei a acender as luzes - deixando os meus pais à beira da loucura com o apaga e acende que os acordou no andar de baixo. Qual não é o meu espanto quando vejo "pling, plings" a cairem, não de uma fissura numa tábua de madeira, mas de várias. Olhei melhor para o tapete: encharcadíssimo. Recolhi-o e fui buscar panos à cozinha - aí sim o pai e a mãe levantaram-se e perguntaram se estava doida: "Não, é só o meu quarto que está inundado, respondi". O meu pai subiu comigo e tentámos limpar a bagunça. Queria um alguidar lá no sotão. "É que nem pensar" - apressei-me, "era só o que faltava! com um "pling, pling" no plástico é que não durmo mesmo!". Decidi deixar os panos no chão e o barulho parece que abafou. Ou então fui eu que já estava tão cansada, quase 40min depois, que adormeci sem dar conta. Ainda me lembro...
...de ver a "Heidi" (Disney, 1993) e as "Mulherzinhas" (Little Woman, 1994) na Sic, na altura do Natal, antes de serem substituídas por versões inúmeras do "Sozinho em Casa". E não estou a falar de bonecos. Eu era pequena, mas gostava era dos filmes assim, com pessoas. O meu sofá não era igual ao de hoje e a televisão era muito mais simples, mas eu era igualmente feliz. A minha mãe falava-me dos livros que lera, que agora eram filme. Eu sentia-me importante porque via coisas
de crescidos e que lhe interessavam. Um ano, em Dezembro, para minha desilusão, não houve "Heidi". No seguinte, também não passaram as "Mulherzinhas". Ficaram os dois pelo meu imaginário, no canto das recordações que guardo com carinho. Mais tarde deram-me a "Heidi" em desenhos animados, vinha junto com a cassete do "Marco" que ficou com a fita presa no leitor, arruinando ambos para sempre. Achei alguma piada, mas não era a mesma coisa. É destes que tenho saudades! E não podem porquê?
Um homossexual pode correr, saltar, brincar, cair, aleijar-se. Pode andar no ensino primário, secundário e frequentar a universidade. Pode trabalhar, ganhar bem, ganhar mal, ser explorado, não fazer nada. Pagar impostos, ter direito a reforma, ser considerado cidadão. Deixam-no viajar, ir ao médico, ao supermercado, andar na rua. Vejam lá o desplante: um homossexual pode chorar, rir, sangrar...até respirar (e sem pedir autorização). Não pode casar e ter filhos porquê? Não tem dois pulmões, um cérebro e um coração como todas as outras pessoas? Não sente, sofre e gosta? Não deseja, tenta e quer? Ora vamos lá ver isto hein! Não sou psicóloga e acredito que a criança não deva nascer de uma decisão tomada de ânimo leve, mas também não sou ninguém para dizer que não deve existir e ponto final. Se me dissessem que eram alcoólicos, drogados, abusadores, aí sim era de haver proibição. Mas vistas bem as coisas, não é preciso ser gay para isso (nem nada que se pareça).Quanto ao casamento nem vou abraçar o ridículo de ter sido sequer questão.
Mania da conspiração
A comunicação social anda cada vez mais criativa. Agora, vejam só, quer fazer-me crer que houve um sismo esta madrugada e que nem foi coisa pouca! Já compraram falsos testemunhos que alegam que a cama abanou, os efeitos da árvore de natal caíram e as portas dos armários abriram, assim como nos filmes de terror. Ai, ai que mentir é feio. Queriam enganar-me com uma coisa destas e nem sequer tentaram que a minha casa tremesse um bocadinho para parecer real. Se fosse eu por trás de tal façanha não descurava nos pormenores. Mas pronto, é só uma opinião...Para a próxima compro umas galochas!
As minhas botas romperam-se. Sim, romperam-se. Eu sabia que não prestavam, mas tinha-lhes achado piada e comprado por uma pechincha. Também sabia que não as devia usar nos dias de chuva: sobreviveram, uma vez, a um temporal, mas enquanto não secaram viam-se as minhas meias por baixo. Acabei por ralhar com as botas e deixei-as de castigo, lá para o fundo do armário.Hoje apeteceu-me usar um vestido. Como o frio teima em continuar, achei por bem perdoar o calçado. São (eram?) as únicas de cano alto que tenho (tinha?) e queria manter as pernas quentes. Pois está bem, mais umas pinguinhas de água em cima e a do pé direito desfez-se atrás, rompeu-se, eu sei lá! Claro que como o tecido permite (uma espécie de camurça?) baixei-as e agora fazem de botins para não andar descalça. Por hoje escampam. Já das minhas pernas geladas não posso dizer o mesmo...
O Natal chegou mais cedo e veio no saco da Coelha
A Coelha, daqui, passou pelo POST-IT e largou, mesmo no meio da caixa de comentários do blogger, um desafio e duas surpresas. Começemos pelo primeiro:
As regras (transcrição):
"Cada bloguista participante tem de enunciar 5 manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher 5 outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do recrutamento. Cada participante deve reproduzir este regulamento no seu blogue."
A participaçã0:
As regras (transcrição):
"Cada bloguista participante tem de enunciar 5 manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher 5 outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do recrutamento. Cada participante deve reproduzir este regulamento no seu blogue."
A participaçã0:
1. Acho que o dia me vai correr mal quando as minhas meias não combinam com a camisola.
2. Faço sempre testes/exames com a caneta com que fiz os apontamentos da matéria em questão.
3. Prefiro estar sentada no meio do chão do que num sofá, e só não o faço mais vezes porque em casa de estranhos bem...estranham.
4. Consigo deitar-me e acordar na mesma posição, sem me mexer durante toda a noite. Mas, se em vez de um edredon desnudo a cama estiver feita com um edredon com capa, a capa vai parar ao chão.
5. Ando sempre com um livro na mala.
O recrutamento:
Ora bem, passo o testemunho aos seguintes:
As surpresas:

O primeiro selo não tem regras se não passar a outros blogs, por isso resta-me agradecer, realmente, a lembrança. Adorei. Já o segundo traz um conjunto de reivindicações. Ele diz que tenho que:
- Oferecer o selinho para 10 blogs.
- Avisar os indicados.
- Dizer o que achou do selo: Muito querido. Obrigada!
- A pessoa que receber o selinho deve deixar um recadinho no blog de quem a indicou.
Vou passá-los aos seguintes:
O que tem de ser tem mais força
Está mais frio, mas a chuva parou. As nuvens deixam o sol espreitar. Ele vem, timidamente, sabendo que o seu tempo ainda não chegou. Deixa-se dormir durante o dia, e fica assim, quieto, sem muito esforço, sem se dar ao trabalho de aquecer. Afinal é Inverno e não apetece fazer muito mais. Eu também o deixei espreitar e abri-lhe a janela, logo pela manhã. Ele, achando-se mais à vontade pela minha casa, decidiu acompanhar-me sem grandes problemas. Saí para a rua e ele voltou a seguir-me. Às tantas, respirei fundo e disse-lhe, com toda a honestidade, que as coisas assim não iam resultar entre nós. Eu estava agasalhada até às orelhas e ele bateu o pé e obrigou-me a ir buscar os óculos escuros a casa, para poder conduzir. Não consegui ficar chateada.
Desta quarta-feira a oito estou de férias.
Most Wanted
Querido Pai Natal, já sabes que eu não sou esquisita, mas a última coisa que quero é sobrecarregar-te nesta época de tanto trabalho. Podes dar uma espreitadela no resto do post, fica só entre nós, prometo. Qualquer coisa, eu nego terem sido ideias minhas:
Relógio ONE, Lojas One ou Luxo 24
Diz que é moda

Usar leggins e botins, lenços ao pescoço ou uns ténis da Merrel são coisas da moda. É de hoje e não de ontem e um dia passa. Mais ou menos como dizer que o Natal é só consumo; alguém sugeriu e os outros seguem, porque é fixe. Talvez não seja de hoje e venha de ontem, mas acredito que passe. Ou o que passou foi o deslumbramento.
Não sou religiosa. A época natalícia poderia não me dizer absolutamente nada. Não é o caso. Nasci num país com uma tradição cristã que está presente não só nas festas como também na arte, nos monumentos, na literatura, e em tantos outros aspectos do nosso quotidiano que nem sempre damos conta. Mesmo na nossa linguagem e expressões populares, como "valha me Deus" ou "calor infernal" (há muitas, muitas outras), evocamos a religião. Faz parte da nossa cultura, mais até do que das nossas crenças, existentes ou não. Ora, se não é preciso ser praticante para dizer "Oh my god" qual é o critério que muda para se poder celebrar uma data tão enraizada no nosso povo que é inclusive feriado? Nada, pelo menos para mim.
Não monto o presépio, mas faço a árvore. Gosto de ver os Pais Natais espalhados pela cidade e as luzes que piscam, brilham e encantam. Adoro as músicas de Natal de melodias alegres e bem dispostas, mesmo que as letras sejam tristes. Gosto das rabanadas e das mil receitas de bacalhau; da confusão, da casa cheia, da família que põe a conversa em dia sem se importar com a sala pequena. Gosto de ver os embrulhos debaixo da árvore, de esperar pela meia-noite que tantas vezes chegou mais cedo.
O meu Natal começa logo no fim de Novembro, quando a cidade acende as luzes e já se ouvem as pessoas a falar do que oferecer; quando começam as campanhas de solidariedade - ou pelo menos se lhes presta atenção. Sim, já sei, estou acostumada a ouvir nesta e noutras esquinas: "Ai, só se preocupam no Natal". Às vezes tenho vontade de responder: antes nesta época do que em época nenhuma. Não concordo que seja preciso um feriado para nos lembrar de como é importante ajudar, para pensar nos outros. Mas se deve ser condenado por isso? Claro que não. Sabemos que há pelo menos um momento, um dia, uma altura, ao longo de todo um ano em que vamos prestar mais atenção ao Banco Alimentar, vamos doar roupa e brinquedos, vamos lembrar-nos de quem não tem casa para passar a ceia com a família; de quem não tem família. Que venham muitos natais!
"Ai mas no Natal é só comprar, é só consumo desenfreado, os centros comerciais andam cheios, credo que horror!". Ou algo como: "Parece que tenho que dar prendas por obrigação." Eu, alheia a todas estas coisas que me parecem estranhas, como se viesse de outro planeta qualquer, em que as pessoas gostam de oferecer presentes, opto por este último caminho. Gostava de poder dizer que faço coisas personalizadas para dar aos que mais gosto, mas os genes dos meus pais não me dotaram de grande jeito para os trabalhos manuais. Gostava de ter uma poupança rechonchuda para esta altura. Nunca acontece. Um dia, porém, não muito distante, hei-de estar a ganhar o suficiente para deslumbrar todos os que gosto com a minha vocação para escolher prendas. Até lá, o meu círculo restrito, restritinho de ofertas - pais, irmãos e namorado, recebe toda a minha dedicação na escolha perfeita para aquela pessoa em concreto. Não faz sentido dar por dar, dar porque tem de ser, dar sem o querer fazer. Eu divirto-me imenso durante todo o Dezembro, em lojas que, ao contrário do mito urbano, estão praticamente vazias aos fins de tarde, durante os dias de semana. E passeio pela baixa de cachecol ao pescoço. Vejo, volto a ver, penso em casa e volto a pensar. Compro, quase na recta final, mas feliz pelas escolhas. Gosto do ritual e de saber que os presenteados também vão gostar. Tudo isso para mim é Natal.
Também sei que nem sempre o tempo disponível é muito, sobretudo quando as pessoas a quem dar são mais, quando há os politicamente correctos "se ofereci a x tenho que dar a y"; enfim, não vou contra-argumentar. Porque no final oferecemos sobretudo àqueles a que mais queremos bem e nem sempre é preciso muito para os deixar com um sorriso na cara.
E claro, gosto de receber prendas, todos gostamos, admitamos ou não. Às vezes são algo tão simples como aquele livro que queremos mesmo ler ou umas pantufas que estamos mesmo a precisar. E mesmo para pouco, os tempos estão difíceis e a crise aperta, não vivo no mundo da Leopoldina e sei dessas coisas. O Natal acaba por sair caro sim, mas não é só consumo. É muito mais do que isso.
Só espero que não chova

Hoje vou-me deixar adormecer com o barulho da televisão, debaixo de três edredons, encostada a uma almofada fofinha, fofinha. Hoje separei uns filmes para ver, já dentro do pijama de inverno. Escolhi a roupa para amanhã, mesmo sabendo que a vou mudar à última da hora. Hoje queria deitar-me sem prazo para me levantar, queria um feriado daqueles de ronha. Mas nem só ao sétimo dia se trabalha. Passa o oitavo e chega o nono que não compreende o porquê da rejeição só por ser feriado. É natal. Decidi não enfurecer o 8 de Dezembro. Sei que a raiva exterior é resultado de tristeza, e não o quero triste. Portanto, amanhã fica a ronha na cama que eu levanto-me. Amanhã é rumo a Tomar de saltos altos e bonitinha para as fotos.
E ao sétimo dia...

Ao sétimo dia o sol também nasce e também se põe. Ao sétimo dia ainda se trabalha. O dia foi passado numa tenda cheia de coisas giras de natal e luzinhas a enfeitar. O dia esteve cheio de pequenada que corria para os bonecos do palco com ares de felicidade e sorrisos de satisfação. O dia virou noite e eu, exausta, vou dar-lhe as boas-vindas.
E o que passou ficou em post-it
Eles diziam que andávamos sempre juntas, que éramos uma. Nunca fomos uma e só nós sabíamos. Gostávamos das mesmas coisas, apreciávamos o espontâneo e alinhávamos nas parvoíces uma da outra. Éramos tão diferentes. Ela queria-os assim. Eu assado. Ela achava que eu era crítica, eu achava que ela merecia mais. Éramos tão iguais. Teimosas e rabugentas. Orgulhosas. Éramos amigas e um dia deixámos de o ser. Um dia o que era igual foi igual demais e nesse dia deixámos de querer ser diferentes. Coisa de filme

Ele conheceu-a e disse-se completamente apaixonado, desde o primeiro momento. Duas noites volvidas, conversas passadas e risos perdidos, teve que se ir embora. Respeitou que houvesse um outro alguém na equação e guardou-a para si, num canto do pensamento que a ele pertence e no qual podem ser felizes. Ele anda com a cabeça noutro lugar, bem longe, chamado esperança.










